sexta-feira, 16 de junho de 2017

Serendipidade



Palavra pesada e de quase complicada decifração, por parecer emergir de caso serene e de piedade, mas não! Simplesmente se trata de serendipismo, que não é doença mas antes um anglicanismo que se refere a descobertas afortunadas feitas, aparentemente por acaso, às vezes a partir de erros. É a gente estar descontraidamente a fazer uma coisa e de repente, descobrir outra, sem menosprezar incidentes que às vezes trazem inspiração. E a história da ciência está cheia e recheia de casos desta estranha forma de criar a que se chama, precisamente serendipismo. E não é serendipista quem quer!



(Turim, Itália, 2012)


Arquimedes tomava banho, passou-lhe uma coisa pela cabeça e saiu nu à rua a gritar “Eureka”, descobrindo um dos princípios fundamentais da hidrostática, conhecido agora por “Princípio de Arquimedes”. E a descoberta surgiu quando se interrogava se a coroa do rei de Siracusa seria realmente de ouro.

Fleming também inventou a penicilina, a primeira droga capaz de curar infeções bacterianas, porque antes de ir de férias, em vez de deixar umas bactérias em incubadora, as deixou em bandejas. Quando voltou, uma delas estava quase desinfetada, depois, lá juntou dois-mais-dois e fez a descoberta que se sabe, de tão importante para a humanidade.

Tantos e tantos que ao longo da história, sem que por vezes a própria história os inscreva e reconheça, fizeram brotar descobertas afortunadas a partir de nadas. Acontecimentos fortuitos aproveitados habilmente, sublinhando avanços, sublimando génios subtilmente aproveitados.

Nos dias de hoje, já é considerada uma forma especial de criatividade, para fazer nascer e crescer ideias, conceitos abstratos e quase distraidamente chegar a luzes e projetos, sem grande estaleca até gritar “eureka”. Uma técnica de desenvolvimento do potencial criativo, bastas vezes aliando inteligência, perseverança e senso de observação.

Uma técnica, uma forma, um rasgo, um acaso, sem engasgo, a descobrir sem querer, quase sem saber ler e ao tentar fazer por um lado, sair por outro. Como achar sem querer, a tentar fazer de uma maneira, por uma certa carreira e olhando ao lado, encontrar novos caminhos ou ver logo ali a meta, sem mais demora. Agora imaginemos os que procurando fé, encontram caridade, ou os que pelo seu próprio pé, buscando soluções milagrosas para estados de alma, encontram na calma do caminho, turbulências tais e incidências banais, que se dão por satisfeitos, pelos feitos entretanto emergidos e despontados.

Como na história dos três príncipes de Serendip, enquanto suas altezas viajavam, faziam constantemente descobertas por acidente e sagacidade, de coisas que não procuravam. E assim nasceu a palavra de facto, por idos de mil, setecentos e cinquenta e quatro.

Casos felizes de descobertas inesperadas, quando se seguem por trilhas encruzilhadas, ou se desviam véus do que afinal existe e do que sempre persiste no esplendor da vida ao nosso alcance, por muito que não custe, por muito que canse.

Estranhos dias à janela, Mário Jorge Branquinho,(Sinapis Editores), 2015



domingo, 11 de junho de 2017

Histórias nossas



De volta a um lugar de partidas e chegadas. Num aeroporto pequeno, o das Lages, na Ilha Terceira, por mais de quatro longas horas, entre voos, do Faial para aqui e daqui para Lisboa. Entre tempestades e suspiros meus, a ver se o tempo passa, na esperança de seguir viagem e enquanto isso, rememorar. Intentar uma espécie de incursão pelo passado ou por momentos de vida que nos marcaram. Só quando paramos, temos tempo para pensar e nem sempre parados, pensamos. Os aeroportos são lugares propícios, sobretudo quando estamos sozinhos.

Neste caso, intento o exercício. Uma intenção de quem passou o meio século e vai desfiando histórias de vida, do que se lembra para memória futura. Do que poderá ler-se mais tarde, com substância e substrato, relatado de modo a perceber os caminhos, com interesse e sentido. As deambulações vividas, nesta corda de vida a esticar-se por emoções lembradas, por circunstâncias passadas e a ver se servem no laço armado de enredos de storitelling. E tantas histórias que todos temos, e tanta vontade de partilhar!


Fora de saudosismos, inscritos na brisa do vento, sustento a escrita, por entre viagens e paragens, dando asas ao desejo de assinalar passagens de um percurso de vida deste passageiro, talvez a meio de percurso. Entre viagens, em plataformas de itinerários dispersos, a fazer incursões pela memória dos dias, na esperança de encontrar episódios de vida dignos de partilha. Cenas de uma vida real, nossa ou dos outros, porque há sempre muito que contar, circunstancias banais, ou não, interessantes ou sim, para a prosa que se quer escorreita e apelativa.

Quando se mata o tempo aproveitando o tempo de que se dispõe para pensar sobre histórias nossas, do nosso percurso de vida, é sempre um exercício arriscado, no risco da banalidade contada e da acrescida vulgaridade de exposição intima. Mesmo assim e apesar disso, assume-se a intenção do risco, e redige-se prosa, como prova de vida apressada e passada, para que conste. Simplesmente para que conste, nesta partilha de vida intima, cada vez mais vulgar, nesta quase necessidade de falarmos de nós. Na decifração daquilo que pensamos, do muito que passamos e das infinitas maneiras de redigir histórias passadas, na primeira pessoa. Sem mais!

E assim, neste interposto de viagens, corro a socorrer-me dos apontamentos mentais que fui anotando, para ver se escrevo, para tentar partilhar e quem sabe, tirar ilações.

Todos nós, temos livros em nós, prontos a brotar, do parto ao presente, com amigos e outros, com sangue, suor e lágrimas, com magias e ternuras e frases furibundas e fases menos boas, com altos e baixos, com figuras marcantes, umas tontas e outras extraordinárias, cativantes e desmotivantes e assim e assado.

Enquanto isso, enquanto consulto o livro, olho o horizonte a ver se chega o avião, a ver se parto daqui, antes que me leve o desânimo de esperar sentado.


Ilha Terceira, 9 de Junho de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

XII MOTIN – Mostra de Teatro Infanto-Juvenil na Casa da Cultura de Seia



Começa esta segunda-feira, 15 de maio e prolonga-se até sábado, dia 20, a 12ª edição do MOTIN - Mostra de Teatro Infanto Juvenil do concelho de Seia.

Nesta segunda-feira apresenta-se TEATRO FORÚM, de Augusto Boal, pelo Senna em Palco, com encenação de José Baptista. Na Terça-feira LOUCURAS EM ROMEU E JULIETA, pela Escola G. Correia Carvalho, de Seia; na Quarta-feira, EM VIAGEM, pela Escola Evaristo Nogueira; na Quinta-feira, PERFORMANCES COMICS, pela Escola Profissional da Serra da Estrela e na Sexta-feira AS PESSOAS DE FERNANDO, pelos alunos da Escola Secundária de Seia. Apara encerrar a Mostra foi convidado o Teatro da Calafrio, Guarda, para apresentar O OssO, de Rui Zink.

O MOTIN é organizado pelo município, no âmbito das atividades da sua Ludoteca Municipal, e que faz estreita articulação no seio da Divisão Sociocultural com os vários estabelecimentos de ensino do Concelho, ao longo dos anos, designadamente: Escola Secundária de Seia; EB 2,3 Dr. Guilherme C. Carvalho; EB 2,3 Abranches Ferrão, de Arrifana; Escola Profissional da Serra da Estrela e Escola Evaristo Nogueira.

Trata-se de uma iniciativa que começou precisamente no dia 7 de Junho de 2006 com o espectáculo “Percival”, pelos alunos da Casa de Santa Isabel, de São Romão.

O MOTIN, que decorre ano após ano, no Cineteatro da Casa da Cultura de Seia, tem como objetivos divulgar a arte teatral; promover e facilitar o encontro dos jovens com o teatro; incentivar a criação de núcleos teatrais nas escolas e na comunidade e promover o desenvolvimento de competências pessoais e sociais importantes na formação dos jovens (concentração, sentido critico, memorização, reflexão, entre outras).

Ao longo destes 11 anos o MOTIN mobilizou cerca de 12 mil espetadores, o que dá uma média de pouco mais de mil espetadores por ano, o que ajuda na consolidação e criação de públicos para o teatro.



domingo, 15 de janeiro de 2017

Contributo para a compreensão do itinerário literário de Mário Jorge Branquinho


Trabalho de Sofia Miranda, Docente do Ensino Superior 

Ler Mário Jorge convoca-nos a um exercício de compreensão de um estilo singular fruto de uma dedicação quase obstinada a uma espécie de catarse libertadora, pelo prazer e pela necessidade de verter no papel as inquietações da alma. A evolução, quando confrontamos as obras, é notória, pelos temas objeto da sua escrita, mas sobretudo pela escrita de persi que o mesmo procurou refinar através do tempo, recorrendo a uma maior abstração e ao emprego de termos que nos convidam a uma constante decifração dos significados. As palavras, escolhidas intencionalmente, encaixam umas nas outras como num puzzle, numa cadência menor ou maior, consoante o ritmo que o autor lhes quis emprestar. E este é assumido pelo próprio como algo importante na sua forma de estar no palco da escrita.
  


O primeiro livro, Sentido Figurado, publicado em 1996, marca formalmente o seu nascimento no mundo literário, onde o mesmo sublinha a insegurança inerente a quem se lança nestes desafios da escrita, sem saber ou duvidando se os mesmos obterão concretização, ainda que não tenha correspondência real porque a virtude mora lá e desde sempre. A obra é marcada por um forte impressionismo, aliás recorrente ou inolvidado nas obras seguintes, que o Branquinho assume pelo gosto, pelo prazer de viajar, de descobrir ou redescobrir os locais, as gentes que marcaram o seu crescimento, numa paleta de cores que vai fazendo questão de acentuar aqui e acolá, num exercício de pura contemplação.

Como emerge através da personagem central, “o contacto com a natureza, já se sabe, é o seu forte!” Tais lugares e gentes constituem  para o autor o seu porto seguro, onde se sente bem, e a que tem necessidade de retornar. Ressurgem em imagens associadas a expressões de cariz vincadamente popular e até brejeiro, claramente assumidas, pinceladas por uma certa ironia, tudo emprestando à sua escrita um caráter singular que não deixa o leitor indiferente, convocando-o a vivenciar diferentes sentimentos.

A personagem Micas constitui um elo de ligação entre os diferentes textos, bem conseguido, fazendo igualmente sobressair a necessidade que o autor tem de regressar à sua condição mais básica, mais elementar, e que constitui para si um porto seguro, como já referido, algo que o devolve ao equilíbrio que o mesmo sabe poder perder no turbilhão da sua ânsia de dizer. A mesma pode-nos ainda levar eventualmente à perceção da importância do elemento feminino na sua vida. Sobressaem, aqui e ali, apontamentos autobiográficos evidenciando uma personalidade inquieta, desafiadora, em constante procura, ao mesmo tempo que se destaca uma necessidade reiterada de racionalizar as emoções, as  inquietações e as constatações. Esta sua necessidade convive assim paredes meias com um lado mais centrado nas perceções imediatas, mas em si mesmas insuficientes, limitadoras.

A dialética é uma constante: entre o ser e o dever ser; entre o pensamento e a concretização; o real e o imaginário; o querer ser e o não dever ser ou dizer. Destarte, a angústia é evidente e permanente em si, mas sem nunca o demover do seu propósito desafiador ainda que isso lhe traga ou possa trazer dissabores. Reservado nas demonstrações, introspectivo ou, como ele próprio diz, um “espírito solitário”,  mas determinado a vencer-se, a ultrapassar obstáculos, a ser o eu por si almejado através da sua própria revelação. As “fraquezas” da personalidade não o limitam. Pelo contrário. A vontade fá-lo suplantar-se a si próprio. Não receia as consequências do seu dizer: “ Indeciso, desconcertante mas firme”. Entenda-se que a indecisão é apenas o ponto de partida culminando necessariamente na firmeza do dizer e do fazer. Existe em si uma grande necessidade de materialização, de concretização relativamente ao que diz. A sua grande capacidade de trabalho é prova disso mesmo. Os vários palcos em que se move constituem o suporte de um dizer com propriedade, de uma experiência feita.

As motivações são muitas, mas sobressaem temas ligados à política, à causa pública, aos valores sociais que lhe são caros, fazendo da ética ou da falta dela o palco privilegiado da sua crítica, aqui e ali, algo ou bastante mordaz, às vezes encoberta por uma ironia subtil ou um humor desconcertante. Vejam-se as crónicas dedicadas aos Presidentes.

Ainda que a escrita, em termos formais, não seja o elemento mais trabalhado, deliberadamente, sobressai já nesta primeira obra a vontade de se desafiar nas e através das palavras, para emprestar ritmo ao texto, para se fazer ouvir, sublinhando sobretudo a vontade de se revelar através da escrita, num exercício libertador inerente à sua própria natureza. É um prelúdio, é uma chamada de atenção, convocando os leitores para a leitura e o comentário que, de modo algum, farão obscurecer a sua vontade, plena de capacidade, de alguém que já existe antes de afirmar a sua existência. Diríamos que, mais do que o sentido figurado que nem sempre o é, o autor fala-nos do “sentido das coisas”, ou melhor, do “estado das coisas” para dar sentido à sua própria vida.


Na sua segunda obra, O Mundo dos Apartes, volvidos seis anos sobre a primeira, a evolução é significativa, sobressaindo uma escrita mais erudita, por vontade própria, mantendo-se, no essencial, as temáticas abordadas. Nota-se um crescimento, uma maior maturidade fruto da vontade, da intencionalidade, do afinco na procura, das experiências da vida, resultando numa maior consistência ditada pela crescente segurança nas suas convicções e nas perceções do que o rodeia, do seu justo valor.

Ler os textos ou crónicas nesta fase é um exercício que nos convoca a todos a um esforço intelectual de decifração e de ligação dos significantes perante os possíveis significados, num jogo inebriante, que nos transpõe para um mundo quase musical, poético, que as palavras transportam, recheado de subtilezas e levezas, envoltas, bastas vezes, numa ironia estonteante ou desconcertante, ora nos prendendo ora nos soltando. Citando as palavras de Fernando Marques Carmino, na obra em que traduz Pierre Hourcade sobre o poeta Pessoa, é uma “prosa de sabor poético”. A grafia e a fonética foram claramente e assumidamente trabalhadas para resultar em textos algo mágicos, fazendo-nos sucumbir nos movimentos de uma dança de palavras, tanto suaves como frenéticos, que nos fazem querer entrar no seu mundo, como nesta frase que se transcreve: “São acelerações e mais acelerações. Acordar a correr e correr para o banho, sem esquecer o esquentador e a toalha à mão e avançar para o fogão, de fervedor na mão, beber de um safanão e sair ao repelão.” Repare-se na cadência, no ritmo, também propositado, na rima constante. Mas o autor não se limita à mera incorporação das palavras no texto. Explica como chegou a elas, os seus possíveis significados, a sua posição, enquadrando-as logo de seguida numa qualquer realidade que o leitor facilmente reconhecerá. Veja-se o texto sob a epígrafe “Palavras ao Vento”.

A personalidade marcante do autor trespassa as linhas do tempo sem sucumbir em nenhuma delas, para dar lugar, no entanto, a novas composições e construções. A inquietação, porque lhe é inerente, mantém a sua centralidade nos textos, reforçada no seu vigor, na vontade de ir sempre mais além, de se superar, provocando e apelando concomitantemente à reflexão e à intervenção do leitor. Exercício sistemático, paradoxalmente solitário, pois as respostas chamadas à colação sabe-as o autor de antemão. Também como ali, aqui, muitas das vezes é apenas para sossegar a alma. A esperança reside dentro de si no sentido de que algo possa mudar para melhor, se houver reflexão ou consciência das verdades que se impõem, recusando-se, de forma quase obstinada, à aceitação passiva de um status quo. Espera assim não “pregar aos peixes” como Santo António, ainda que o próprio disso faça graça.

O autor é ou continua a ser um observador constante e atento da sua gente e do seu quotidiano, da sua terra, defendendo intransigentemente, porque lhe correm na alma e no corpo, os valores a esses lugares comuns associados, sempre implícitos e explícitos na obra, recusando o seu esquecimento, por vezes travestido de calorosas palavras circunstanciais proferidas por aqueles que bem conhece, na perspetiva de captação de dividendos. Recusa assim que “os seus”, fruto da interioridade, sejam catalogados através de qualificativos pouco recomendáveis e aceitáveis, valorizando a simplicidade e a autenticidade que vão rareando.

Há, sem hesitação, uma genuína e inabalável defesa das origens, das marcas que o/nos sustentam, que muitos camuflam em nome das vaidades ou ambições desmedidas. Não é o seu caso. A crítica ou o comentário político estão assim muito presentes, implícita ou explicitamente, nos textos, área aliás em que se sente muito à vontade fruto de uma experiência vivida. Temas que aborda ora com elevada erudição ora com simplicidade, envolvidos com ironia e humor que desconcertam qualquer leitor ou que, pelo menos, não o deixa indiferente, levando-o, vezes sem conta, ou as que forem necessárias, a esboçar sorrisos ou risos, impelindo-nos a novas leituras, as que se seguem no livro. O retrato impressionista, consequência deste seu apego à terra, mantém a sua presença nesta obra, muito em particular quando fala da sua serra (Serra da Estrela).

Não restam dúvidas sobre a inegável capacidade literária de Mário Jorge Branquinho, porque não há como negá-la perante a materialização alcançada, sem nunca abandonar a sua premissa, a sua palavra de ordem ou desordem: inquietação. E sem que com isto queira ou ouse chegar a algum lugar, mas tão só divagar, despertar consciências, libertar, para depois… não sair do lugar, a que sempre retornará nas suas viagens, umas imaginárias outras reais.

O Mundo dos Apartes é um notável conjunto de textos ou crónicas, que nos oferecem de tudo um pouco, por vezes lugares comuns, e que nos impelem a mais leituras. Como diria o autor “palavra de honra” que é verdade! Lembra a obra, aparte as especificidades de cada um, de Jean-Paul Sartre, consubstanciada no seu livro  As palavras, texto autobiográfico, de um estilo inconfundível, mas igualmente inebriante, que nos aponta o caminho da crítica livre. A forma como Sartre se retrata, sem pudor e sem receio de mostrar as suas limitações, é fascinante: ”Virtuoso por comédia, nunca me esforço ou constranjo: invento. Possuo a principesca liberdade do actor que mantém o público em suspenso e aprimora o seu papel; adoram-me, portanto sou adorável. Nada mais simples, se o mundo é bem feito. Dizem-me que sou belo, e eu acredito. Há já algum tempo que trago no olho direito a belida que me deixará zarolho e vesgo, mas por ora nada aparece.” É esta forma simples, corajosa, despudorada, de falar de si como se fala dos outros, com um humor refinado que nos prende aos textos que carateriza alguns escritores nos quais incluo Mário Jorge Branquinho sem qualquer hesitação.


A terceira e última obra de Mário Jorge Branquinho, Estranhos Dias à Janela, decorridos doze anos sobre a primeira, editada em 2015, é simultaneamente um exercício de continuidade e de ampliação quanto às temáticas e aos horizontes que o mesmo procura abordar e alcançar nas suas incessantes viagens de ida e de volta, ainda que balizadas em termos de concretização por um hiato temporal significativo. Horizontes focados através das várias “janelas” em que se observa e observa o que o rodeia ou o que anseia, qual púlpitos prestes a acolher quem tanto tem para dizer, de si e dos outros.

Temas como as causas públicas, a sua visão sobre o homem e o seu quotidiano, continuam a ser objeto de análise e crítica reflexiva. As suas gentes e os seus lugares nunca são no entanto olvidados, aqui e ali, sem ordem de prioridade cronológica porque a eles sempre voltará, por apelo e por afeto. Contudo, a sua análise crítica vai extravasando, nos seus limites geográficos e temáticos, o âmbito puramente local ou regional, assumindo um alcance mais global, acompanhando a inexorável realidade ditada pela evolução tecnológica e como consequência das suas próprias intervenções e experiências de vida, muito ligadas, nos últimos anos, ao mundo cinéfilo. Veja-se o texto sob a epígrafe “E tudo mudou”.

A inquietação continua a manter a sua centralidade, perpassando todos os textos como algo que é inerente à personalidade do escritor e que ele assume sem qualquer hesitação. Entre o ser e o parecer, o ir e o ficar, o ver e o fazer, tudo é algo e o contrário de si mesmo. É notória, como o foi nas obras anteriores, uma personalidade dividida entre um eu racional e um eu mais sensorial, este último das pulsões, dos impulsos, dos desejos. O lado mais racional do autor impede-o de se lançar em aventuras irrefletidas, de um só sentido, sendo materializado nas suas análises críticas acerca do comportamento humano, no que concerne nomeadamente à falta de ética, de empenho, de zelo, de ambição, no querer fazer bem. Veja-se o texto intitulado “Brio”.

As diferentes realizações profissionais do autor falam por si, consubstanciando os valores pelo mesmo defendidos e interiorizados. Este lado mais racional coabita assim com um lado mais emocional, sensorial, que o leva a partir e a regressar, a viajar sem sair do lugar. Este último materializa-se nos impulsos, nos desejos assumidos mas que apenas obtêm realização no seu imaginário, nas suas viagens, em que deambula, vagueia, anseia, mas sabendo de antemão que é apenas isso. Estas são as viagens sonhadas, pinceladas de apontamentos reais de outras viagens vividas e, mesmo naquelas, define, consciente ou inconscientemente, o seu regresso, mesmo naquelas, poucas, em que mostra de forma indelével o seu lado mais íntimo, quando nomeadamente diz “…porque amanhã é outro dia e cada um irá à sua vida.”

Como é natural, a idade vai deixando as suas marcas no autor ao tomar consciência e expressar o facto de que já passaram muitos anos, sem que no entanto a inquietação refreie no seu vigor, no seu ímpeto. As dúvidas acentuam-se porque tem consciência do efémero, do tempo que urge e não espera pelas definições e pelas concretizações. “Meia-idade” é disso testemunho. Nesta obra, o conteúdo e forma surgem congraçados de forma harmoniosa, pois também o estilo evolui, se refina, para dizer o que se tem a dizer com propriedade.

Em jeito de síntese, estamos perante um autor marcado por uma personalidade não direi dual, mas constituída por duas facetas igualmente marcantes, onde a racionalidade e a emoção se interligam para resultar num equilíbrio essencial que nunca o deixa perder o leme do seu barco, conduzindo assim o leitor por entre as ondas, as paisagens fascinantes, a um porto seguro.  Alguém que vai desbravando terreno, indo sempre um pouco mais além, mas seguro de si. A escrita, no seu estilo, na sua forma, é sem dúvida singular quando combina magistralmente as palavras, sentindo o leitor o prazer da leitura, séria nos propósitos, mas pincelada de um humor inebriante e até desconcertante.

Nenhuma das obras do autor deve ser secundarizada. Todas elas nos permitem compreender ou apreender a globalidade do pensamento do criador. Por exemplo, a personagem Micas, presente na primeira obra, representa a segurança, o equilíbrio essencial, ainda que nas obras posteriores se materialize de forma mais abstracta, conclusão que retiramos das suas próprias palavras. Micas é o porto seguro, a origem e o fim de si mesmo, pois o autor viaja muitas vezes sem sair do lugar ou a ele retornando como condição da sua própria existência e sobrevivência. Destarte, o exercício de apreensão  da alma do escritor implica “viajar” com ele, desde sempre, através das suas palavras, perceber as suas motivações, o seu crescimento, porque a essência, que não precede a sua existência, está lá no lugar mais recôndito e longínquo.

Compreender um escritor implica tomá-lo na sua plenitude, contextualiza-lo nos seus diferentes lugares e tempos. Foi isto que se procurou de alguma forma verter neste texto. Caberá a ele próprio, autor, e aos leitores avaliar se foi alcançado o propósito.

O leitor espera agora do autor outras viagens porque a isso o levou, criando uma grande expectativa que, diria, bem fundada. Espera-se que a sua vontade e o seu empenho, demonstrados noutras paragens, o levem a soltar-se através da escrita, contando “estórias” de tudo e de nada, com alma e sabedoria, num estilo que lhe é próprio e que o leitor, que já teve o privilégio de o ler, não mais esquecerá, desejando sempre poder mergulhar e envolver-se nas suas palavras. Assim o esperamos!
  
Referências Bibliográficas

BRANQUINHO, Mário Jorge, Sentido Figurado, 1996
BRANQUINHO, Mário Jorge, O Mundo dos Apartes, 2002
BRANQUINHO, Mário Jorge, Estranhos Dias à Janela, Sinapis Editores, 2015
SARTRE, Jean-Paul, As Palavras, Livros Unibolso, 1964
CARMINO, Fernando (trad.), a mais incerta das certezas – itinerário poético de fernando pessoa-pierre hourcade, Tinta da China, 2016