sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Comunidade Intermunicipal promove debate sobre os acessos ao maciço central da Serra da Estrela


Agora fala-se de planos de prevenção de fogos florestais e de como combater o flagelo em tempo de “guerra”, com os fogos aí na ordem do dia, neste Verão quente de 2016.
Entretanto, aproximamo-nos de mais um Inverno e tão depressa teremos o assunto dos acessos ao maciço central outra vez na comunicação social, onde se fala do corte de estradas na sequência da queda de neve. Uma situação com mais de trinta anos e que ano após ano é recorrente.
Por isso, a Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, a que presido, vai realizar um debate no próximo dia 9 de Setembro, no Auditório da Torre, de acordo com a seguinte nota de imprensa:




“Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela promove debate na Torre sobre os acessos ao maciço central

No âmbito das suas atribuições, a Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIM-BSE) em colaboração com o Conselho da respetiva CIM, vai organizar no próximo dia 9 de setembro, pelas 10 horas no Auditório da Torre, um debate sobre os acessos ao maciço central da serra da Estrela. 
O Ministro das Infraestruturas de Portugal, Pedro Marques foi convidado para participar neste debate para o qual estão também convidados os Presidentes de Câmara e deputados da CIM das Beiras e Serra da Estrela, deputados eleitos pelos distritos de Guarda e Castelo Branco, Presidentes de Juntas de Freguesia, Turistrela, Turismo do Centro, empresários, forças policiais e de Proteção Civil, entre outros. 


No entender da Assembleia, esta será uma jornada de elevada importância e uma oportunidade para juntar vários intervenientes e procurar respostas para um problema que prevalece há várias décadas e com consequências para a imagem e economia da região. 
Com as alterações climáticas, tem diminuído de forma acentuada a queda de neve na serra da Estrela, mas mesmo assim, sempre que cai neve, são cortados os acessos ao maciço central, impedindo o acesso das pessoas àquele ponto. 
O que fazer então para promover a mobilidade na única estância de esqui em Portugal? 
Este é o desafio do debate que a Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela vai realizar na Torre, a quase dois mil metros de altitude.”




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Real e o Fantástico de Luís Rente em Trancoso nos anos 60



“Entre o Real e o Fantástico – Memórias de Trancoso nos anos 60”, é o título da mais recente publicação de Luís Vieira Rente, onde relata episódios da sua infância e adolescência que viveu na terra de Bandarra.



Numa escrita leve e descontraída, às vezes com travo de sátira e humor subliminar, Rente inscreve recortes de prosa apurada e simultâneamente travos de storytelling, por entre uma narrativa corrida de histórias de sua vida enquanto jovem. Histórias de vida banais, em Trancoso, como em tantos lugares recônditos, de um país soterrado em expedientes de vida difícil, onde perpassam alegrias e feitos de quem se contenta com pouco.
Uma escrita escorreita, onde num quadro real se contemplam descrições de vizinhanças, andanças e locais míticos, colocando ênfase nos primeiros estudos e episódios de juventude de Rente, para quem a origem do apelido contínua envolta em mistério.
Nesta escrita, entre episódios reais e outros tantos disfarçados de fantásticos, espreita a hilariante descrição de episódios de vida simples, onde pontuam pessoas e lugares que marcaram a época. Quem é de Trancoso e tem mais de quarenta, revê isso mesmo, lugares e pessoas. Quem não é, como eu, entra num universo de histórias encantadoras. Simples episódios, como as que rodam à volta da Pacheca, o autocarro da Companhia Manuel Pacheco, que diariamente fazia o percurso Lamego – Guarda e retorno, onde iam e vinham encomendas, sobre o olhar atento do cobrador, ”um homem honestíssimo, o senhor Araújo de seu nome”.
Ingredientes bastos, entrecruzando entre os tempos livres, o desporto e o clube da terra, as peripécias e os jogos, os homens que passaram e fizeram história, ou as mulheres simples e influentes na vida da vila, como a cabeleireira, a modista ou a professora. O café, lugar de encontro e afetos, o Senhor da Pedra, altar de celebrações da Primavera e deambulações diversas.
Na segunda parte do livro, entra o fantástico onde resultam “personagens de recriação romanesca, vagamente inspiradas em figuras reais”, como o autor alerta, redundando em “coincidências fortuitas” com a realidade.
Por onde se deambula pelo Louva-a-deus, descrevendo-se o “Turinho” barbeiro; o “bom vivant” do Sargento; a Chefe dos Correios “senhora esmoler”, de grande dedicação e amor à arte; o Ângelo da Fonseca, outra figura típica e conhecida por feitos e desventuras, ou o Manel Sampedro, que tivera uma vida faustosa, entretanto dissipada. As descrições em torno do Zézinho Pombal, funcionário público, que se reformou da máquina de escrever e do ofício com o surgimento dos computadores; o Bitobá, considerado “um tipo porreiro”, sem horário para “despegar” do trabalho ou o Artur que sonhava ter uma Florett, um brinco de moto que acabou por ter, e perder mais tarde, com a própria vida, debaixo de um camião.
Assim se lê e se percebem episódios da vida de Rente na infância e juventude, como quem lê histórias simples de uma vila, numa escrita escorreita, leve e fresca, por entre o real e o fantástico descritos e separados.
Resta acrescentar que Luís Vieira Rente, embora nascido no Brasil (1956), viveu a sua infância e adolescência em Trancoso. Vive em Seia desde 1982, onde é professor do quadro de um dos agrupamentos de escolas da cidade. Licenciou-se em História (1979) e concluiu Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses (2003) com dissertação editada pela Câmara Municipal de Seia “O Marcelismo e o 25 de Abril vistos em dois jornais locais – Subsídios para a história recente de Seia (1968- 1975)”.

Mário Jorge Branquinho
Jornal Terras da Beira, 4 de Agosto de 2016








sábado, 23 de julho de 2016

O desenvolvimento de Seia, transformações e paradigmas


A propósito da instalação de uma superfície comercial no lugar de uma das mais emblemáticas fábricas têxteis do concelho, entretanto desactivada  e no seguimento de desabafos e conjecturas entretanto feitas, ocorreu-me abordar esta temática por se relacionar com o processo de desenvolvimento do concelho de Seia.

Durante décadas, no concelho de Seia prevalecia uma mono-indústria, a dos têxteis, de que Lúcia Moura aborda no seu livro O Concelho de Seia em Tempo de Mudança (1997), com enfoque nesta indústria dos finais do século XIX ao desabar da 1ª República. Um sector que prevaleceu, até ao séc. XX, desabando esmagada pela invasão de produtos chineses, na década de 90. O impacto poderia ter sido muito desastroso para o concelho, pela super-dependência desta indústria, mas graças à intervenção do poder politico, os encerramentos foram feitos paulatinamente, apesar de algum sofrimento. No período áureo, estimava-se que estivessem empregadas nesta indústria e vários subsectores, cerca de 3 mil pessoas, entre Fisel, Vodratex, Fercol, Vila Cova, Loriga e Santa Marinha. Foi um período próspero, impulsionado por um homem: Joaquim Fernandes (1915 – 1996), no próximo dia 9 de Dezembro completam-se 20 anos após a sua morte.

Essa é a questão, quando um concelho está demasiado dependente de uma fonte de riqueza.

Naturalmente que em paralelo se desenvolveu a actividade de aproveitamento hidro-eletrico, mas de menor impacto na absorção de mão de obra, sobretudo depois de feitas as barragens e centrais da Estrela.

Como a necessidade aguça o engenho, com a queda dos têxteis outras pequenas indústrias foram emergindo e hoje podemos referenciar o sector de calçado, através de investimento alemão, mas significativo. Podemos igualmente referenciar o sector dos lacticínios, quer através das queijarias artesanais, quer através das várias fábricas de queijo, que abastecem os mercados nacionais e internacionais. Um sector a necessitar de matéria prima, ou seja leite de ovelha bordaleira, para poder expandir ainda mais. Fenómeno idêntico ao da produção de medronho, que tem uma procura imensa no mercado dos anti-oxidantes. Acrescenta-se ainda nesta área de negócios com peso na economia local os relacionados com os vinhos, o pão, a fruta, o mel e os enchidos.


Neste paralelo, surgiram os chamados call-center’s, mas é o mercado turístico, com o incremento dos alojamentos, restauração, lojas de produtos, que ganha espaço e relevo no quadro económico do concelho. É evidente que tirando o agro-alimentar, que se impôs graças ao empenho de agentes empreendedores, a área do artesanato em geral não logrou render muito para a nossa região, porque, tirando os Chinelos da Avó, resultantes também de dinâmica empreendedora de uma jovem local, não temos um produto dito artesanal da Serra da estrela que se tenha imposto no mercado.

Em paralelo, surgiram alguns serviços que se reputam de muito importantes, no quadro do desenvolvimento local, particularmente na área do ensino, como sejam o incremento da Escola Superior de Turismo e Hotelaria, do ensino artístico da Escola Profissional da Serra da Estrela e do Conservatório de Música. A intervenção destes e de outros estabelecimentos e instituições, sobretudo da área social, que têm igualmente forte impacto na economia local, tem entroncado na estratégia do município, que tem feito da cultura e do ambiente, factores de desenvolvimento local. Uma estratégia que tem passado igualmente por incrementar o espírito empreendedor dos jovens, através de intervenções nas escolas e instituições, que tem dado frutos, mas ténues. E vários são os factores que estrangulam o apetite de investimento nesta região, a começar pelos decorrentes da Interioridade, que todos já conhecemos.

Apesar disso, não podemos baixar os braços, nesta quadra de capitalismo selvagem, que não tem forma de impedir que se instalem um número indefinido de supermercados numa pequena cidade de um dia para o outro. Já houve a fase em que todos abriam pastelarias, depois seguiu-se a fase do fim do monopólio das farmácias e agora não há regras nem entidades reguladoras que nos valham.

Apesar de conhecermos as transformações operadas e os novos paradigmas surgidos, não podemos desistir de continuar a incrementar o espírito empreendedor, para que os jovens percebam que não basta procurar emprego, mas sim procurar criar empresas para gerar investimento e criar riqueza, independentemente das angústias e outros constrangimentos associados.

Apesar de se saber que nunca foi tão difícil como agora abrir um negócio, criar uma indústria, com tantos “custos de contexto” como pomposamente lhe chamam, porque só quem tem de pagar as contas todas ao fim de cada mês, sabe o que custa ser empresário e empreendedor.

E aqui como no resto, resta acrescentar que já todas as frases foram inventadas para salvar o mundo, falta apenas uma coisa, salvar o mundo!


MJB

domingo, 12 de junho de 2016

Em Buenos Aires com o CineEco de Seia




Acabo de participar em mais uma jornada de trabalho na área do cinema de ambiente que me deixa marcas profundamente positivas, tanto no campo pessoal, como no aspecto profissional.

Regresso de Buenos Aires, essa grande capital da Argentina, onde participei como júri da competição internacional de longas-metragens do FINCA – Festival Internacional de Cinema Ambiental, assim como orador numa conferência sobre festivais de cinema ambiental e numa Mostra de filmes CineEco de Seia. Tudo numa semana intensa, de 1 a 8 de junho deste 2016, com o Verão a chegar a Portugal e o Inverno frio e desconfortável a penetrar na terra de Carlos Gardel. Uma experiência na sequência do convite que me foi dirigido pela Diretora do festival, Florência Santucho, na minha qualidade de diretor do CineEco e membro do Green Film Network, rede de 32 festivais de todo o mundo de que também somos fundadores.

Uma oportunidade para dar e receber, partilhando o que de melhor fazemos há 22 anos e aprendendo para melhorar, num processo de partilha e intercâmbio entre festivais da mesma rede. Uma forma de actuar e conhecer, onde cada festival que convida assegura as respectivas despesas através de apoios e patrocínios diversos, como fazemos em Seia, onde o município, entidade organizadora procura todos os anos aproximar a receita da despesa e assim manter o festival ano após ano. Uma aposta continuada pelo Presidente Carlos Filipe Camelo, reiterando os propósitos de ver na cultura e no ambiente, factores de desenvolvimento local.

Por isso, esta foi uma experiência marcante num festival impactante, na senda da afirmação internacional do festival de Seia, sobretudo nos principais países da América Latina. Depois de em anos recentes ter sido Júri em festivais e levado Mostras do CineEco ao Brasil – festival Filmambiente no Rio de Janeiro; festival Fica em Goiás e Festcineamazónia em Porto Velho e ao México – Cinemaplaneta em Cuernavaca, surgiu agora esta oportunidade na Argentina.

Desde logo a longa viagem de Lisboa a Buenos Aires, com escala em São Paulo, uma passagem só possível com o apoio da embaixada de Portugal na Argentina, que prontamente acedeu ao pedido da organização do FINCA, pela referência que tinham do festival português! E depois, chegar a uma cidade densa e maravilhosa, como é Buenos Aires, com muita marca europeia, muito para ver e apreciar, num momento de situação política, económica e social complexa, dura e difícil.

Em primeiro lugar o trabalho.

Reparti o Júri com Marcelo Burd, docente da Faculdade das Ciências e da Comunicação da UBA, realizador e guionista e Damián Verzeñassi, médico, professor titular e responsável académico de saúde ambiental e práticas finais da carreira de médico na Universidade Nacional de Rosário.

Assisti aos filmes em competição – 7 longas-metragens de grande qualidade, com abordagens diversas, desde o desenvolvimento sustentável, alterações climáticas, soberania alimentar, os impactos das extrações minerais, as contaminações, energias renováveis e a mãe terra, essa terra de onde tudo provém!

Atribuímos o primeiro prémio a “Sagrado Crescimento” / Sacrée Croissance, (França), de Marie-Monique Robin, um trabalho que propõe um conhecimento às alternativas e alterações possíveis frente ao paradigma do crescimento hegemónico e apresenta experiências colectivas que estão em marcha, para ajudar a construir sociedades mais saudáveis. Atribuímos ainda Menção Honrosa a La Tierra Roja, de Diego Martinez Vignatti (Argentina, Bélgica e Brasil), uma ficção que interpela o espectador frente a conflitos ambientais, sociais e políticos presentes numa região, sobretudo no que toca à problemática das contaminações nos alimentos e a La Buena Vida, de Jens Schanze, (Alemanha) que aborda problemáticas ligadas às extrações mineiras em grande escala e a consequente destruição dos povos, suas culturas e territórios.

Por aqui dá para ver o interesse dos temas tratados do ponto de vista ambiental, à semelhança de muitas outras abordagens também presentes noutras sessões paralelas e na Mostra de Filmes CineEco. Esta Mostra, que constituiu mais um factor de afirmação do festival de Seia, contou com a exibição das curtas: Um Verão Interminável, de Carmen López Carreño (Espanha); Cinema Dehors, de Filippo Rivetti e Tatiana Poliektova (Austrália, Rússia); Decadence of Nature de Olga Guse (Alemanha); Si J’avais une vache, de Norma Nebot (Espanha) e Pies secos do realizador chileno Joaquin Baús Auil, que esteve presente e com quem conversámos a propósito da estreia mundial deste filme em Seia, na edição do ano passado do CineEco.

Foram ainda exibidos nesta mostra as longas A Mulher e a Água, de Nocem Collado, (Espanha); Buscando desesperadamente uma zona branca, de Marc Khanne (França) e Todo o Tempo do Mundo, de Suzanne Crocker, (Canadá), que também esteve presente e com quem recordámos o sucesso que o filme teve em Seia e que se repetiu em Buenos Aires.

Foi um gosto participar nesta Mostra onde o público aderiu e registou o aroma de filmes que habitualmente passam no único festival de cinema de ambiente que se realiza em Portugal e um dos mais antigos no mundo.

Para um dos dias do festival estava também marcada uma conferência - Como organizar um festival de cinema com compromisso social, onde foi apresentado um “manual para organizadores de eventos cinematográficos de direitos humanos e meio ambiente” e que conta com um texto que me foi solicitado, a propósito do “CineEco, como caso de estudo”. O manual pode ser consultado aqui: http://imd.org.ar/manual/

Entretanto, um dos momentos altos do festival foi a conferência sobre Soberania Alimentar, que decorreu na Aula Magna da Faculdade de Medicina de Buenos Aires, com a presença de Vandana Shiva, filosofa e escritora indiana, ativista em favor do ecofeminismo, criadora da Fundação para a investigação científica, tecnológica e ecológica. Um auditório completamente cheio para ouvir uma voz autorizada no combate aos agrotóxicos. Porque a comida é a porta de entrada para quase todas as doenças, é preciso combater a hegemonia das grandes indústrias alimentares, como é o caso da Monsanto que acaba de fundir-se com a Bayer e que é causadora do surto exponencial de cancros e outras doenças mortais em todo o mundo.

Outra actividade importante foi a reunião aberta de Vandana Shiva e Marie-Monique Robin com a Comissão de Ambiente e desenvolvimento sustentável do Senado da Nação Argentina, para sensibilizar o poder político para estas questões de soberania alimentar.

A organização do FINCA, que cumpriu este ano a 3ª edição sob a direção de Florência Santucho, pertence ao Instituto Multimédia de Direitos Humanos de que é presidente Júlio Santucho. Esta organização promove igualmente um Festival de Cinema de Direitos Humanos, que vai na sua 15ª edição, tendo por isso uma equipa muito profissional, coesa e solidária, bem como uma extensa lista de voluntários que dão vida e dinâmica às iniciativas.

Durante a semana, fui sempre acarinhado e bem recebido por esta equipa fantástica do festival e outros convidados, com destaque para os realizadores Ricardo Gomes – Mar Urbano (Brasil), Giulio Squarci – Os Guardadores da água (Itália), Miryam López, diretora de comunicação do Festival da República Dominicana, entre muitos outros.

Para além das actividades em que estive envolvido, deu ainda para desfrutar da cidade, passeando junto ao Rio Del Pata, na Feira de San Telmo, no Caminito,... Nas várias caminhadas entre hotel e cinemas por ruas movimentadas, Florida, Tucuman, Córdoba, Rivadavia e Avenida Corrientes, esta última com as suas salas de teatro e por isso considerada a “rua que nunca dorme” e por vezes conhecida como a Broadway de Buenos Aires.

Ainda o imponente Obelisco, a praça San Martin, o bairro de Palermo Soho e a mítica livraria Ateneu, onde comprei o último livro de Eduardo Galeano, El Cazador de histórias, editado após a sua morte no ano passado e que ainda não chegou a Portugal.

A convite da organização, deu para assistir a uma noite de Tangos no mítico café de Los Angelitos, tango que ainda havia de dançar para a fotografia numa das ruas do centro, para turistas e noutro local a uma festa de folclore.

Porque no domingo não tinha programa, aproveitei para fazer o Bus Turístico, onde encontrei um grupo de portugueses que de Seia conheciam “os joelhinhos”! E de joelhos e restante corpo meio frio, pelo ar gélido da cidade, assim fui conhecer melhor os lugares de que falavam e que antecipadamente tinha anotado, sobretudo da imponência do seu centro e outras zonas residenciais, que configuram grandes contrastes entre zonas ricas de um lado e bairros pobres do outro.

Por fim um imprevisto, o taxista que me esperou no hotel às 6 da manhã, levou-me para o aeroporto errado. Como ainda faltavam duas horas e meia, entrei noutro táxi, quase já sem pesos e alguns euros, mergulhando num trânsito imenso, meio angustiado, na incerteza de chegar a tempo e a ver os minutos passar. Não ganhei para o susto e por um minuto não fiquei em terra!









 









Mário Branquinho
#cineeco #finca #seia #cinemambiental

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Seia deve reivindicar a sede do Geoparque da Serra da Estrela



Recentemente 9 municípios da Serra da Estrela e o Instituto Politécnico da Guarda procederam à assinatura de um Memorandum com vista à prossecução de uma candidatura para a classificação da Serra da Estrela a Geopark Global da UNESCO.
Este Memorandum, como foi salientado constituiu os primeiros alicerces daquilo que virá a ser um novo paradigma para o desenvolvimento deste território.

Neste sentido e enquanto deputado com responsabilidades na Assembleia Municipal de Seia, entendo que a sede deste futuro Geoparque da Serra da Estrela, deve desde logo ser reivindicada para Seia. Várias são as razões que podem sustentar esta justa reivindicação, desde logo pela existência da Escola Superior de Turismo e Hotelaria, entidade com responsabilidades acrescidas na criação deste projeto.

A existência do CISE – Centro de Interpretação da Serra da Estrela, enquanto estrutura orientada para o desenvolvimento de atividades de educação ambiental e de valorização do património ambiental da serra da Estrela. A realização do CineEco, único festival de cinema ambiental que se realiza em Portugal, há mais de 20 anos e um dos mais proeminentes internacionais.

Também o Seia Smart Mountains Living Lab, que está em processo de criação, será igualmente um factor inovador e decisivo no contexto de valorização e inovação de aspectos da ruralidade à luz da modernidade.

Acresce a centralidade de Seia e a sua proeminência na sua estratégia de desenvolvimento em torno do potencial da montanha, com exemplos dados num quadro de valorização de tradições culturais. Todo um trabalho que tem vindo a ser seguido na promoção do desenvolvimento turístico e integrado, em torno do potencial turístico da região da Serra da Estrela, de forma sustentável, integrada, criativa e inovadora.

O Geopark Estrela, com mais de 2 mil quilómetros quadrados  e aproximadamente 170 mil habitantes, engloba uma área que inclui os municípios de Belmonte, Celorico da Beira, Covilhã, Fornos de Algodres, Gouveia, Guarda, Manteigas, Oliveira do Hospital e Seia, mais do que uma classificação a território da UNESCO, consagrará a Serra da Estrela como território de Educação, Ciência e Cultura.



Mário Jorge Branquinho
Líder da bancada do PS na Assembleia Municipal de Seia
Seia, 17 de Janeiro de 2016



sábado, 12 de dezembro de 2015

Dá que pensar



Dá que pensar não pensar muito, assim como soa estranho, passarem os anos, quase meio século e nós redobrados nas nossas interrogações e incertezas do caminho. Do percurso que fazemos, das histórias de vida concebidas, dos sonhos e realidades conseguidas, assim como de tudo o que fomos capazes de enfrentar, nas alegrias e nas tristezas, no bom e no mau que decifrámos. Um caminho alucinado de esperanças e iluminado de crenças, umas vezes bem-sucedidos, outras frustrados, mas quase sempre assentes na banalidade efémera das causas, por não durarem como queríamos.

Dá que pensar, lembrando quando fomos crianças e sonhámos em ser crescidos e pelo meio do caminho recebermos doces e rebuçados, jogos, prendas e enamoramentos e muitos divertimentos. Podemos incluir memórias de tempos e momentos de parcos recursos e aqui e ali dalguma dor, por ser normal, mas sempre felizes, com quase nada.

Dá que pensar lembrar como fomos crescendo, sonhando pela normalidade de quem quer emprego e posses e família e filhos e carro e casa e mesa e roupa lavada e tudo o mais que leve a um padrão de conforto, além do que pudesse vir por direito próprio. Como também a lembrança da caminhada que foi prosseguindo, nem sempre a melhor, por tantas vezes optarmos por males menores em nome de estabilidade, em nome de princípios e regras e normas, com amor, com dedicação e sempre, mas sempre com denodada entrega ao trabalho, malfadada sina de quem não sabe fazer mais nada.

Dá que pensar não poder fazer a caminhada contrária, da cova às entranhas, como no estranho caso de Benjamin Button. Uma interrogação de quem chega a um provável meio caminho e se desdobra nas encruzilhadas, entre impulsos e recalcamentos, vontades contidas e desejos incontinentes e amiúde inconsistentes.

Dá sempre que pensar, mas chegados á ponta de onde se começa a ver vários fins de ciclo, de amigos que partiram e tempos que não voltam, quase explodimos. Quase saímos da repetição dos dias e das horas, das rotinas que acenam tontas e quase diluímos preconceitos de quem não está para mais nada senão para ver e sentir. De quem já ouviu de tudo e não quer saber de mais nada, de quem já perdeu e já ganhou, de quem já foi avisado e de quem mais ninguém se lembra se não for notado.

Pode parecer estranho desfiar assim um rosário de contas deitadas à vida, desta forma redonda, mas pode impor-se assim, sem mais.

Pode parecer estranho, mas só resvalando nalgumas inquietações, numa dose moderada de interrogações, escutando imprudentes silêncios, se pode augurar o sabor dos efeitos colaterais de um atrevimento de sentido contrário à norma.



MJB, 10 de Dezembro de 2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O valor da marca Seia coloca-nos em 79º lugar no ranking das melhores cidades para viver



No universo de 308 municípios portugueses, Seia encontra-se entre as melhores 79 cidades para viver, segundo um estudo da consultora Bloom Consulting, revelado pelo Jornal de Negócios. Lisboa continua a ser a melhor cidade para viver, seguindo-se Porto e Braga.

A lista compara diversos indicadores de natureza económica com um conjunto de 26 perguntas-chave, que agrega o que as pessoas procuram num município a nível mundial.

O ranking foi elaborado através do cruzamento de diversos dados estatísticos, como desemprego, número de hospitais, salário médio, taxa de criminalidade ou dormidas turísticas por município.

 As três categorias em análise são Negócios (Investimento), Visitar (Turismo) e Viver (Talento), ou seja, qualidade de vida, turismo e ambiente. No ano passado Seia encontrava-se em 76º, o que significa que este fenómeno pode ser usado em benefício do desenvolvimento local.


Vale o que vale, mas quando às vezes se referem exemplos de concelhos vizinhos, seria bom verificar a localização de algumas dessas cidades: Oliveira do Hospital - 150º; Gouveia – 140º; Nelas – 136º; Mangualde – 97º e Fundão – 94º.

Apesar de ser um município do Interior do país, e de enfrentar muitas debilidades inerentes à sua localização, a que não é alheia a própria situação financeira do município, não deixa de ser pertinente constatar-se o valor da nossa marca territorial.

É evidente que para este ranking muito terá contribuído a dinâmica empreendida, as infraestruturas construídas, assim como o património cultural e paisagístico, nesta encosta da Serra da Estrela. Não deixam de ter importância os pequenos contributos das iniciativas desenvolvidas e dos esforços empreendidos, que vai da rede de museus, ao CISE, aos eventos das aldeias de montanha, das feiras de produtos e festivais realizados, entre os quais o CineEco, que projetam uma imagem de excelência para o exterior, assim como o contributo das empresas, instituições e escolas. Estas últimas têm tido um papel preponderante, sobretudo no que se refere à excelência do ensino ministrado, começando nas Escolas Básicas, passando pela Escola Profissional, Conservatório de Música e Escola Superior de Turismo e Hotelaria.

Todavia, não pode o resultado deste estudo servir para nos encostarmos à sua sombra, mas antes para aproveitarmos o mesmo para nos servir de alavanca e estimulo para crescer. O mesmo resultado só comprova que Seia tem potencialidades, mas terão de ser ainda mais bem aproveitadas, usando-se de persistência, criatividade e inovação, no quadro do estímulo que permanentemente tem de usar-se, por todos nós.

Ou seja, comprova-se que Seia tem futuro, mas o sucesso depende de nós e o que fizermos hoje terá reflexos no imediato, para o bem ou para o mal.


MJB

quinta-feira, 14 de maio de 2015

ARTIS XIII - Festival de Artes Plásticas de Seia 2015



Arrancou no dia 2 de maio a XIII edição do ARTIS - Festival de Artes de Seia, um dos eventos de referência da programação cultural concelhia que se tem vindo a destacar pelo contínuo crescimento qualitativo, assumindo-se como um espaço privilegiado para a promoção das artes do concelho.
A inauguração contou com homenagens ao artista senense Júlio Saraiva, desenhador profissional, e Geofff Kilpatrick (a título póstumo), personalidade das belas artes e artesão, a que se seguiu um concerto com a Orquestra didática do Conservatório de Música de Seia.
António Júlio Vaz Saraiva dedicou a maior parte da sua vida ao desenho, como desenhador profissional na empresa Hidroelétrica da Serra da Estrela e como artista, representando particularidades do património histórico de Seia e do concelho, retratando figuras locais e ilustrando obras de autores senenses. Nascido em 1928, também é fotógrafo amador desde 1940 e tem participado em diversos trabalhos de valorização e promoção do património histórico local. A sua obra acompanha o desenvolvimento de Seia na segunda metade do século XX, interrogando agora, no início de um novo milénio, os caminhos senenses para o futuro. 
Até 15 de junho, muitos dos seus trabalhos podem ser vistos na galeria do Posto de Turismo de Seia.

Geoffrey Norman Kilpatrick foi um dos artistas presentes na primeira exposição de artistas senenses, em 1999, na Casa Municipal da Cultura, participação repetida em várias edições da ARTIS. Geoffrey nasceu em Inglaterra, a 16 de janeiro de 1961, onde estudou belas artes, no politécnico de Coventry, e residiu em Pinhanços – Seia até 2000. Do seu percurso de artista é de assinalar a realização de várias exposições na Inglaterra, Irlanda e Portugal, tendo igualmente se dedicado ao artesanato. As suas “casas de xisto” – miniaturas das casas tradicionais em xisto – fizeram escola na região, servindo de modelo e inspiração a outros artistas e artesãos.
Algumas das suas obras podem ser vistas nas Galerias da Casa Municipal da Cultura, durante os dois meses do Festival ARTIS.

A ARTIS é promovida pela Câmara Municipal, em parceria com a Associação de Arte e Imagem de Seia, coorganizadora do evento, e desempenha um importante papel na promoção e desenvolvimento cultural da comunidade, diversificando e qualificando a oferta cultural e artística, estimulando não só a participação das pessoas e organizações culturais, como também facilitando o acesso das populações à criação e fruição culturais.
O Festival decorre até ao dia 30 de junho na Casa Municipal da Cultura e Posto de Turismo de Seia, sendo composto por uma Mostra de Pintura, Escultura e Fotografia, integrado num programa que contemplará outras áreas artísticas.
Destaque, neste âmbito, para a instalação performativa “Experiências do Presente Peneiram o Futuro” de Ricardo Cardoso, que teve lugar junto ao Mercado Municipal de Seia, no dia 13 de maio, performances de rua pelos alunos do Agrupamento de Escolas de Seia, nos dias 20 e 27 de maio na parte da manhã e a 3ª edição da Mostra de Música Moderna de Seia (MMMS) e a 6ª edição do Festival Especial, que irão decorrer no Cineteatro da Casa da Cultura, respetivamente, nos dias 16 (21:30h) e 17 de maio (15:30h).
Nesta 13ª edição do Festival ARTIS, a expressão dramática também merece destaque, incluindo na sua programação, de 25 a 30 de maio, o VIII Motin – Mostra de Teatro Infantojuvenil, com espetáculos dos grupos de teatro das escolas do concelho, do ator António Fonseca, encerrando com espetáculo "Oxalá não demore ao céu cair para abraçar o fogo que nos consome", do Teatro da Academia de Viseu.
No âmbito do festival estão ainda programadas ações como a apresentação do exercício final do Curso de teatro, performances do Agrupamento de Escolas de Seia, sessões de filmes ligados às artes – 7ª Sena _ Núcleo Cinéfilo de Seia, atividades de rua, oficinas de pinturas, etc.

Blogue oficial do Festival de Artes e Imagem: www.artisdeseia.blogspot.pt 

domingo, 8 de março de 2015

Estranhos dias à janela, comentários ao livro



Intervenção do Presidente da Câmara de Seia
Carlos Filipe Camelo


Fui convidado para convosco partilhar a apresentação do livro “Estranhos Dias à Janela”, do Mário Jorge.

Sabia que me seria pedido para nesta noite proferir algumas palavras.

Por isso, e ao usar da palavra nesta cerimónia, posso correr o risco de, no vosso pensamento, e aprioristicamente, aqui ou ali, ser acometido de alguma tendenciosidade ou parcialidade, dada a relação de forte amizade que cultivo com o autor..

No entanto, mesmo correndo esse perigo, aceitei, como aliás o prova a minha presença aqui.
Devo-o ao respeito e consideração que tenho pelo Mario, mas também por todos aqueles que acharam por conveniente presenteá-lo com a sua presença na noite de hoje.

Como todos sabem tenho com o Mário Jorge privado de forma diária, muito de perto, há cerca de 30 anos.

Têm sido, como todos possamos estar a pensar, e como costumo afirmar, anos de complementaridades e de cumplicidades, nas muitas ações consigo partilhadas.

É sabido que a identidade de cada um de nós se  gera num recipiente onde diversos ingredientes se misturam mais ou menos harmoniosamente, independentemente da ordem em que os possamos citar: a família, a terra, os amigos, a cultura, a profissão, os valores, o respeito pelos costumes e tradições, as motivações fundamentais de uma vida, a busca da verdade sobre si próprio.

Perante nós temos uma pessoa serrana, do Sabugueiro, das Beiras e Serra da Estrela, numa terminologia muito atual, de origem familiar de cultura clássica, pessoa firme e convicta dos seus ideais, pródiga em amizades duradouras, amante da vida e do respeito pelo próximo.

São, pois, muitas as dimensões observadas que nos oferece a sua personalidade e que dá sentido à sua vida onde encontrei, em continuidade, o sorriso, a amizade, o conselho, a disponibilidade, a solidariedade, a seriedade, a camaradagem e o altruísmo.

No entanto, e para além de tudo, todos aqui na sala conhecerão, certamente, o autor, da sua relação com a escrita, na imprensa, no cinema e nas artes, na cultura, no associativismo, na política ou na economia social.

Não vou por isso prender-me em mais considerações diretas relativamente ao Mário Jorge…

Antes, e como é meu hábito e preocupação, lembrar-vos que são momentos como este, que o nosso concelho produz felizmente de forma abundante, nas mais diversas áreas, que nos inspiram a celebrar a nossa comunidade e a assinalar as suas virtuosidades.

No fundo, evidenciar aquilo que temos de genuinamente bom: a capacidade e o conhecimento das nossas gentes, das nossas pessoas. Elas são sem dúvida o nosso maior ativo, porque despertam a energia cívica e social do nosso Concelho.

E o Mário Jorge é, sem dúvida, uma dessas pessoas singulares, que contribuem, com o seu empenho, para o crescimento e afirmação da nossa terra.

O seu percurso cívico, marcado por uma cidadania ativa é, de resto, bem revelador e um exemplo que é replicado um pouco pelos diferentes setores da nossa comunidade, que permitem que o Concelho se mantenha na linha da frente, reafirmando, simultaneamente a sua identidade.

Ao autor, os maiores êxitos, pessoais e profissionais saldado com um abraço forte e solidário do tamanho da nossa Serra da Estrela.

Muito Obrigado a todos.




Comentário 
de Maisa Antunes *

Estranhos dias à janela dá a ideia de abertura, uma abertura desafiadora, porque é preciso vencer o desafio de olhar sem culpa, e a astúcia de perceber uma saída aventureira, uma saída que quebra convenções [no sair], torna-se preciso arriscar um pulo para sair, ou arriscar-se assumindo outros papéis para olhar, para olhar-se, e encontrar este estranho que há em nós.

O livro traz a perspectiva de estar na fronteira entre o distante e o íntimo. Estranhos dias à janela contempla o fora para ver o que estar dentro. O ritmo das palavras com seus enunciados trazem os contrários sem estabelecer dicotomias, mas a sensação de incompletudes de complementaridade – quem é o outro que vejo? Eu próprio? E assim se torna um exercício de reflexos, um espelho.

É a janela do inesperado, e da espera paciente...

Estranhos dias à janela – Uma janela que abre fendas na memória para acessar as distâncias, com intimidade, e assim nos leva ao poema pessoano “navegar é preciso viver não é preciso”.

De cada janela em diferentes lugares do mundo: ruminações de perguntas, de questões de todos nós, respostas internas que generosamente inclui o outro, do outro lado da janela.

Estranhos dias à janela é uma janela ampla que se transforma em varanda e nos oferece um lugar para sentar... para tiramos “a pedra do sapato” e arrumarmos o pensamento.  

Estranhos dias à janela convoca filósofos/poetas que através da perfeição literária e poética expõem a imperfeição humana. E assim este livro nos coloca na ciranda da vida, trazendo as reflexões do quem somos e as ilusões que nos salvam.

Uma janela que é retrato, e sendo retrato revela-se também um auto-retrato. Assim este livro parece uma autobiografia de todos nós, digo, de cada um de nós.



*Maisa Antunes é doutoranda em Pós-Colonialismos e Cidadania Global – no CES – Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra, com o projeto “A arte e a educação”; é colunista do Escrítica (www.escritica.com); e do Cidade do Anjo https://cidadedoanjo.wordpress.com; professora do Departamento de Ciências Humanas - Juazeiro, UNEB – Universidade do Estado da Bahia – Brasil.


Antevisão, 
de Sérgio Reis *

Doze anos decorridos sobre a publicação de “O Mundos dos Apartes”, fazia já falta um terceiro livro de Mário Jorge Branquinho, reunindo textos recentes, inéditos e dispersos, alguns dos quais publicados no seu blogue, Seia Portugal. Longe de ser uma mera coletânea de textos avulsos, “Estranhos dias à janela” reafirma o autor como perspicaz observador crítico do seu tempo e dos lugares, partilhando generosamente com o leitor o prazer da escrita e o seu entendimento do mundo – no sentido em que Kafka gabava a orientação recebida do seu amigo Oskar: "Tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer." (Franz Kafka, Carta para Oskar Pollak).

Os últimos anos, de crise económica e aflição social, impuseram temas e reflexões a que Mário Jorge Branquinho não podia ficar alheio, como cidadão responsável e interventivo, preocupado com as condições de vida das gentes da sua terra, região e país. No entanto, não se procure nestes textos aguilhões panfletários para além da reflexão crítica sobre o contexto em que se desenvolve o atual mal-estar social e político, em parte provocado pela crise económica mas também fruto da excessiva confiança geral no funcionamento das instituições democráticas. “Estranhos dias” que cada qual pode observar, analisar e comentar do seu ponto de vista, da sua “janela”, ou de várias perspetivas e outras tantas “janelas” abertas pelos jornais, televisão e Internet para um “país em bolandas”, com toda a gente “a querer pular a cerca da inquietação” (O mundo em bolandas). Basta recordar a importância da imprensa na vida de Mário Jorge Branquinho (fundador, administrador, diretor e colaborador de jornais locais e regionais) e a relevância que concede à escrita, além da sua paixão pela fotografia, para exprimir ideias, sensações e sentimentos, integrando-se pelo mérito no colégio literário senense e na história recente da cultura em Seia.

O que diferencia principalmente este livro dos anteriores, cuja leitura se recomenda para melhor apreciação do caminho percorrido, é a inegável dimensão poética da escrita. Uma escrita apurada, culta, que se desdobra em significados e sentidos. Uma escrita “em arco”, inspirada e inspiradora, cuja musicalidade faz lembrar o jazz poetry e o rap, ecoando ao longo da frase e da superfície do texto. Induzindo viagens, pelas “janelas de emoções” e muito mais além, até ao âmago do problema, ao “busílis da questão”, o “centro da periferia”. “Escrever em arco é partir, andar por lá, em aventuras de escrita (…) e voltar são e salvo, sem hipotecas narrativas. (…) É ir a muitos mundos e voltar (…), tantas vezes sem sair do lugar, sem estagnar!” (Escrever em arco). Viagens no sentido de incursões, observações avançadas, visitações, mas também “desviagens” – esses desvios à vista que permitem encarar novos e velhos problemas de perspetivas inusitadas, emboscando-os mais à frente na curva do tempo, para os resolver, muitas vezes sem querer ou por acaso (como no serendipismo?) pois “nem sempre vamos aonde queremos” (Partir daqui, a partir de agora). Mas quando voltamos de uma viagem, somos ainda nós ou já outra pessoa? Para Miguel Torga, viajar “é deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além" (Diário, 1937) e Mário Jorge Branquinho conclui justamente que “só não muda quem não acompanha nem quer sair do lugar” (E tudo mudou).

As fotografias que o autor articulou com os textos, pontuando o livro, permitem traçar o mapa das suas aventuras periféricas, como cidadão do mundo, “no cruzamento com outros, em ruas plácidas, ou em caóticos labirintos” (Inventário de sentimentos), captando momentos específicos e não apenas a memória dos lugares. Espreitando pela janela da máquina fotográfica as janelas do mundo, através das quais se avistam paisagens humanas, paraísos artificiais e outros abismos, “o paradoxo ilusionista em que se vive” (Olhar langue), os “novelos górdios” do nosso tempo e não apenas do nosso espaço e lugar. Os artistas, grosso modo, pintam as janelas nas fachadas, como olhos na cara das casas, mas os fotógrafos têm essa vertigem especial de perseguir imagens através de vidros, lentes de máquinas e janelas, aproximando-se imprudentemente da realidade – e por isso a fotografia é mais objetiva que a pintura. Mário Jorge Branquinho é fotógrafo amador (no mais autêntico sentido do termo “amador”, ou seja, “aquele que ama”) com diversas exposições e prémios no currículo, e as imagens soberbas que pontuam os espaços mentais do livro vão muito além do simples registo fotográfico ilustrativo, espicaçam a imaginação e a interpretação, desdobram-se em sugestões de narrativas.

Cada uma dessas imagens vale autenticamente por mais de mil palavras, procurando as legendas nas frases dos textos, tudo articulado com a engenharia possível numa obra desta natureza. Dois livros num só, como dois autores num só, que se completam e esclarecem mutuamente – um pouco à semelhança de Fernando Pessoa, poeta admirado por Mário Jorge Branquinho, que o evoca discretamente ao longo de “Estranhos dias à janela”.

O livro termina com palavras de incentivo, encerrando com a curiosa sugestão do fim de ano em agosto, um mês de calmaria propício a balanços, para começar do zero depois das férias, frescos e com ganas de refazer tudo um pouco melhor. “Afinal, porque é que não vale a pena, se nunca houve tanto progresso?” (O estado psicológico da nação. Pela positiva). “Em tempo de crise, de falta de muito, sobra a criatividade e a ousadia de fazer mais para fazer sentido” (Balanços). Assim seja.

*Professor e artista plástico, de Seia



 À janela amanhece
  por Alexandre Sampaio*


à janela amanhece
e o dia regressa
num turbulento esplendor

as sombras recolhem aos pés
primitiva casa de penhor
furtivas e insinuantes
e toda a noite trémula
orvalha

amanhece
irremediavelmente

a mesma luz cintila
e refracte
mas não reconheço em que tempo incide
a janela medeia o silêncio atraiçoado
e já o rouxinol que o canto segue

também tu querias que eu fosse pássaro
nascente
água desmedida que sobe ao olhar
e se desmancha sobre a mesa

mas partiste
ainda Endimião dormia

na primeira névoa
hiberna ao longe o estio da cidade
e são estranhos os dias à janela
que pairam sem florir

por isso o centeio dança com as mãos
no vidro frio da retina
e quando negras nuas se descobrem
são já as vozes dos camponeses
que as colhem

é o novo dia coroado
novo mastro peitoril

o vento ondula docemente o milheiral
(ressoa um sino na memória)
o pinhal emerge sumptuoso
(brisa de rosmaninho sobre a pele)
o rio espreguiça o seu ofício líquido
(verbo que humedece)

desenho no mapa embaciado
efémeros continentes
novas atlântidas e constelações
gestos e rotinas
que a claridade consome

gente que ri
gente que vê
gente que dá
gente que crê
gente que dorme
gente que morde
gente amontoada
a paisagem sua

abro a janela
(e digo-me adeus)



* Alexandre Sampaio, encenador, performance