segunda-feira, 13 de abril de 2020

O “amigo Zeca de Seia” provoca onda de solidariedade com máscaras e viseiras



Já é conhecido por todo o país como o “Amigo Zeca de Seia”, pela onda de solidariedade que a partir do seu atelier, tem desenvolvido, confecionado máscaras recicláveis e viseiras de acrílico, para distribuir gratuitamente por várias instituições sociais e de saúde.

Em meados de março, com o eclodir explosivo da pandemia, começou por confecionar máscaras de proteção recicláveis para utilização em contexto extra-hospital, fornecendo a instituições, de forma totalmente gratuita.

Associou-se ao jovem empresário de malhas, Filipe Marques, que tinha encerrado a sua empresa por falta de encomendas de cachecóis dos clubes europeus de futebol. A última encomenda seria destinada a um jogo do Bayern de Munique para 20 de abril, ao que se sabe!

Do material dos cachecóis tentaram uma espécie de manga, que não resultou, tendo optado pela confeção de uma bolsa, levando por dentro um elemento filtrante, descartável. Coseram o elástico, testaram e em pouco tempo reuniram com o município de Seia a quem apresentaram o projecto, em forma de oferta. Foi precisamente a 20 de março, no dia de aniversário do Zeca, quando já havia alguns municípios a fazer máscaras, mas com tecido sobre tecido, sem elemento filtrante.

Sem muitas delongas, o município de Seia adquiriu o primeiro lote para distribuir por todas as IPSS do concelho, aproveitando a disponibilidade do empresário senense José Rogeira que financiou de imediato, o custo da matéria prima e maquinaria deste primeiro lote, para o qual foi também decisiva a colaboração de vários voluntários na costura final, de Loriga, Vila Cova, Seia, S. Romão, Torrozelo, Paços da Serra e Manteigas.

Por isso, o Zeca realça sempre que tudo isto só é possível graças a uma equipa de pessoas, membros da GNR, farmacêutico, comerciantes locais, estudantes, associados a um saudável espirito de camaradagem e convívio em tempo de pandemia. Aqui o Zeca, é o José Loureiro e toda uma equipa sem a qual não conseguia, e indica os nomes, para que conste: Paulo Brás, Carlos Silva, Tiago Ferreira, Pedro Daniel Conde, Amândio e Marcelo Daniel, Jorge e Pedro Pinto, Afonso Rogeira, João Quaresma, Fábio Fernandes, João Oliveira, António Magina. João Ferreira, Carla Reis e Olga Oliveira.

E em pouco tempo ao atelier chegavam pedidos e colaborações, numa onda conjunta de quem precisa e de que está disponível para colaborar. Tem havido inclusivamente pessoas que levam comida e bebida para quem se envolve neste projeto solidário.

Sempre são vários dias e horas, fechados na faina de fazer, coser, atar e andar!

Exausto em alguns momentos, mas entusiasmado o tempo todo, o nosso Zeca abre, entretanto, uma outra frente solidária, a da conceção de viseiras, desenvolvendo uma ideia a partir de um modelo fornecido por um seu amigo Kika do Minho. E começa outra etapa desta onda solidária, no tal espírito de equipa.


Aproveitando todos os restos de acrílico da sua oficina, recicla-os e quando dá conta, está a distribuir mais de mil viseiras pelo comércio local, GNR e outras instituições de diversos pontos do país. Tudo gratuitamente. E a máquina de corte da sua oficina não para. Tem cortado mais em quinze dias do que nos últimos meses. Já depois de acabar todo o acrílico que havia por ali no pavilhão, foi encomendando mais, até chegarem mais sobras de outras empresas, sensibilizadas pela sua ação, ligando-se a esta rede solidária deveras impressionante. Tão impressionante como a simplicidade do Zeca, dedicado por vezes mais de 16 horas por dia à causa, fazendo e distribuindo, orientando e explicando sempre que “não é nada”, apenas disponibilidade e colaboração. Tem havido pessoas a querer pagar e lá vai explicando, pausadamente, que não, que é gratuito, que é para proteger quem precisa ser protegido, no trabalho, na saúde e na vida confinada que se abateu sobre todos.



Já lá vão mais de 6 mil viseiras, leves, funcionais e práticas, oferecidas para onde são precisas, em toda a região da serra da Estrela, pelo país e por alguns países da europa. E a fama do “Zeca de Seia” alastra, ao ponto de alguém numa vila das proximidades oferecer uma máscara a uma senhora idosa de um pequeno comercio e ela perguntar se era uma “mascara do Zeca”! Ou daquele outro senhor da Guarda, que foi a uma loja perguntar se tinham viseiras para as suas filhas que trabalham no hospital e alguém na fila para atendimento lhe diz que ligue para o “Zeca de Seia” que ele tem e lhe dá o contacto na hora.

Entretanto, há poucos dias começa outra etapa deste storytelling. Uma enfermeira de uma localidade próxima de Seia mostra uma “viseira do Zeca” ao marido, que é um engenheiro a trabalhar na PSA de Mangualde, que por sua vez vê ali uma ideia para levar a quem manda. E não foi preciso esperar muito tempo para que o grupo PSA e a fábrica PSA de Mangualde ficassem sensibilizados com este projeto solidário e com o espírito de entreajuda que está na base da iniciativa. Associaram-se ao projeto e à colaboração do Zeca.

Mário Branquinho


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Cinema ambiental para despertar consciências

Em Portugal há um festival de cinema único, que se dedica exclusivamente à exibição de filmes de temática ambiental. Organizado pelo município, o CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, decorre em Seia, anualmente em Outubro desde 1995, tendo completado a sua 25ª edição neste ano de 2019. O festival fez o seu percurso ao longo de um quarto de século e hoje constitui uma referência no quadro de festivais internacionais de cinema de ambiente, integrando uma rede de mais 39 certames desta natureza espalhados pelo mundo, o Green Film Network.

Cumpre um serviço público na região de Seia e serra da Estrela, pela realização do festival e mobilização de públicos, mas também no país, como o festival de cinema de ambiente de Portugal, ao dinamizar uma vasta rede de extensões ao longo do ano, em mais de 40 cidades, para o público geral e escolar.

Ao longo desta trajetória de quarto de século, o evento que se assume igualmente como movimento em prol de mudança de hábitos, reafirma a importância do cinema como ferramenta fundamental na promoção dos valores ambientais.

Neste contexto, importa sublinhar a importância do cinema enquanto ferramenta que permite partilha de conhecimento, assim como área de fornecimento de pistas de aprendizagem capazes de abrir portas à reflexão. Que levem a questionar, a inquietar e a operar mudanças de comportamento, sobretudo quando falamos de cinema como recurso educativo. E aqui, entra em linha de conta, a importância de problematizar estratégias de linguagem, operadas em filmes eco-ambientais, de cariz educacional.

Filmes, enquanto objetos artísticos e ferramentas pedagógicas, capazes de demonstrar a importância das artes para mudanças de paradigmas nas sociedades contemporâneas. Neste caso concreto das questões de ambiente e sustentabilidade, o contributo tem sido decisivo, à medida do leque de intervenção. Das inúmeras sessões realizadas e dos públicos mobilizados, seja nos auditórios, nas escolas ou outros espaços alternativos, em reforço constante da ação e missão.

A confirmação de alguns fenómenos como as alterações climáticas, as ameaças à biodiversidade, o esgotamento de recursos, entre outros, colocaram na agenda mundial a tomada de consciência da crise ambiental de carácter global.

Em face destas ameaças cada vez mais presentes, nos atropelos aos valores ambientais e de sustentabilidade, emerge por isso, o imperativo de mudança. De um modo geral e de forma simplista, o foco coloca-se sobretudo na necessidade de redução de uso de plásticos, na redução de consumo de carnes e outros alimentos compostos, e de uma maneira geral na redução da emissão de gases com efeito de estufa provenientes de industrias, transportes, agricultura ou resíduos.Neste contexto, além da difusão do gosto cinematográfico, o cinema ambiental tem sido um instrumento primordial na promoção da educação ambiental junto do universo escolar. Pequenos contributos para a formação de cidadãos mais esclarecidos a nível ambiental, na busca de melhores condições de vida na nossa “casa comum”, a que também chamamos planeta.

A tudo isto, junta-se o “efeito Greta Thunberg”, que tem despertado a opinião pública, os governos e as instituições e sobretudo os jovens à escala mundial, agitando consciências para o imperativo de mudança nos nossos hábitos diários e necessidade de políticas capazes de inverter o flagelo apressado do aquecimento global a que assistimos.

Por tudo isto, tudo é pouco e o cinema é o muito que nas artes se pode dar, numa causa que nos mobiliza a todos.

Seia, 20 de Dezembro 2019
Mário Jorge Branquinho, no Observador




sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Carta aberta aos “desalmados de  burnout”

Cara senhora ou senhor,

Espero que esta minha carta os encontre à procura de melhor saúde mental, na expetativa de melhores dias, em todos os teatros de operações diariamente frequentados.
O desejável era que não fosse, mas a estatística diz-nos que sim, que há fortíssimas probabilidades de estar no clube dos “desalmados de burnout”. Uma elite a que aderem cada vez mais, à proporção do stress físico e emocional e respetiva exaustão e sentimentos de ineficácia a eles associados.
De facto não acontece só aos outros, por isso me lembrei de si, que certamente é um de seis que sofre a bom sofrer, silenciosa e delicadamente. Um dos expostos a esse danado stress laboral crónico que o deixam em baixo ou de baixa. Carregado de lapsos de memória, de falta de concentração, impaciência, irritabilidade, fadiga ou enxaqueca, ou dores, ou insónias, ou desânimo, ou baixa auto-estima, ou desespero constante ou outra coisa qualquer não recomendável no livro da psiquiatria.
Se está neste lote, é quase de certeza uma das vítimas de quase bullying laboral, ora de lideranças frágeis e frouxas propícias à desmotivação, complicadas ou arrogantes, ora de sistemas toscos e sisudos e ambientes obscuros, ora ainda de ameaças e medos a emergir na concorrência feroz e atroz.
Como deve saber, o importante é saber o que lhe faz mal, circunscrevendo o diagnóstico e a partir daí colocar o foco nas coisas boas, arredando da ação e do pensamento tudo que é tóxico. E claro, como vem nos manuais, evitar conflitos e mexericos, sorrir e adotar formas de vida saudável. Ou como diria o outro, dividir o dia em três partes. Oito horas para trabalhar, oito para dormir e outras oito para o lazer e família. E não é preciso ser rico para ser assim, porque nas horas de lazer e família está o busílis. Se convivemos com os amigos, se praticamos desporto, se vamos ao cinema, se ouvimos música, se lemos, se pescamos, se deixamos os assuntos laborais no local de trabalho e vice-versa e se e se. Nem precisamos fazer o pino, apenas saber separar o que é do trabalho e o que é da família.
Cara senhora ou senhor, se não está neste clube de “desalmados de burnout”, não se ria porque a qualquer momento pode estar. Se já está ou quase se sente membro desse inferno, saia enquanto é tempo, para não se infernizar e enfermar a si e aos seus. Nem precisava que lhe lembrasse, mas nunca é demais recordar, como nunca é demais treinar a mente para estes exercícios do que deve e não deve, para não sofrer e perder. Olhe que é na alegria que está o ganho e na inteligência emocional de que nos falam.
Mesmo na adversidade laboral ou familiar, lembre-se que quase estamos condenados a aturar-nos uns aos outros, por isso use as suas defesas e não pense que tudo isto é moralismo prosélito. Continue a colocar paixão e criatividade no que faz e faça você mesmo por criar ambientes propícios à colaboração e entreajuda e sobretudo procure meter na gaveta a arrogância de quem o martiriza. E de caminho, se poder, meta lá dentro a pessoa, não hesite!
Só se vive uma vez e se lhe disserem que no trabalho não precisamos de ser amigos, cultive a amizade, mesmo na adversidade e sorria e siga e surpreenda os seus pares sempre que for oportuno. Ofereça flores ou chocolates, cante, dance, conviva sempre que puder, e não apenas no Natal, porque como se diz no Carnaval, a vida são doiSem exageros, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, para que não lhe apontem o ditado de “muito riso, pouco siso”, enverede pelo meio do caminho, que é onde pode estar a virtude ou a bondade. Tanto em casa como no trabalho, em terra ou no mar, muitos ditados se aplicam a tempestades, porque onde há duas pessoas há um potencial de conflito e de ondas. E quem quer ver o caráter de uma pessoa, dê-lhe um pouco de poder, e constate a crispação na maré alta da presunção de que se fala.
Na gestão de conflitos e sobretudo nas relações interpessoais é que está o segredo e não há que ter medo, siga, descontraia e se for preciso medite, que a meditação é a oração dos honestos.
A terminar, formulo votos de melhoras ou cautelas, conforme os casos e não se esqueça que é possível viver feliz e triunfar na vida, mesmo numa pocilga de inquietação ou no reino da hipocrisia.
Bom Natal!
Seia, Dezembro 2019
Observador, 14 dez 2019, 00:084

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Sabugueiro, aldeia em transformação


(texto publicado na Revista Iberografias, nº 15, do Centro de Estudos Ibéricos, com sede na Guarda)


Mário Branquinho

1.
Em plena montanha, a 1050 metros de altitude, chamada a “aldeia mais alta”, o Sabugueiro, fica a meio caminho do “teto de Portugal”, ponto mais alto da serra da Estrela, a quase dois mil metros. A dois passos da única pista de esqui do país, para cima, e a 11 quilómetros da sede do concelho, Seia, para baixo.
Com cerca de 450 habitantes (478 nos sensos 2011), o Sabugueiro é hoje, em 2019, uma aldeia que vive essencialmente do turismo, com mais de 30 lojas comerciais, predominando produtos artesanais e 10 restaurantes que valorizam a gastronomia local.
O alojamento local tem vindo em crescendo, quer pela recuperação de casas antigas no centro antigo, quer pelo registo oficial efetuado pelos seus proprietários. Ao todo, contam-se no portal do Turismo de Portugal 30 unidades registadas, com 1 hotel de 4 estrelas, 1 hostel e demais alojamentos locais, para um total de 465 dormidas legalizadas.
O Sabugueiro é uma das mais extensas freguesias de todo o Parque Natural da Serra da Estrela, sendo a aldeia conhecida pelos seus recursos naturais, entre os quais as quedas de água, e pelas paisagens de uma vegetação serrana única.
Precisamente pela sua localização, o Sabugueiro constitui um dos melhores pontos de partida para conhecer algumas das estruturas do aproveitamento hidroeléctrico da Serra da Estrela, de que são exemplo as barragens do Lagoacho, do Vale do Rossim e da Lagoa Comprida, o maior reservatório de água em toda a serra.
Embora o turismo e o comércio constituam as principais atividades económicas das suas gentes, os usos e costumes de antigamente marcam, ainda, o ritmo diário da aldeia. Algumas das atividades são valorizadas através de eventos organizados no quadro do projeto da rede de Aldeias de Montanha. Destas, destacam-se a Queima do Entrudo (Sábado de Carnaval), a Caminhada à Serra (Maio), a Festa da Transumância (Junho), a Noite das Caçoilas (Novembro), além das festas religiosas do Santíssimo Sacramento (1º Domingo de Agosto) e a Festa da Nª. Senhora da Graça (3º fim de semana de Setembro).
O padroeiro da terra é S. João Batista, celebrando-se a sua festa na noite de 23 para 24 de junho. Para além da Igreja Paroquial, existe ainda outro local de culto que é a Capela de Nª. Senhora de Fátima.
Outrora terra de centeio e de pastorícia, o Sabugueiro oferece ao visitante paisagens deslumbrantes e locais pitorescos de curiosidades múltiplas.
A Praia Fluvial é o local privilegiado para o descanso, sobretudo no Verão, onde apetece mergulhar nas águas cristalinas que correm por entre as pedras gastas da ribeira. Junto à praia fluvial, na margem do Rio Alva, situa-se o Polidesportivo da Freguesia, disponível para o desporto e lazer, quer dos habitantes da aldeia, quer dos turistas que visitam o Sabugueiro.
O "Forno Velho" é hoje um espaço museológico onde estão retratados vários aspetos rurais da aldeia, com destaque para a pastorícia e as sementeiras agrícolas. Este espaço situa-se na parte mais antiga da freguesia, junto ao forno comunitário.
O forno comunitário foi ao longo dos anos utilizado por quase todas as famílias da freguesia para cozer o "Pão do Sabugueiro", um elemento central da alimentação que dava sustento para uma ou duas semanas. Ainda hoje o visitante pode encontrar algumas mulheres da aldeia com os seus tabuleiros à cabeça, que aqui vêm cozer o saboroso pão.
Os moinhos de água e o forno comunitário são exemplos de memórias de um passado que não quer ser esquecido.
A Cascata da Fervença e o Covão do Urso, ampla depressão de origem glaciária, constituem exemplos de valores paisagísticos que merecem uma visita.
Do ponto de vista social e cultural, destaca-se o papel da Associação de Beneficência do Sabugueiro, uma IPSS com várias valências, que emprega cerca de 30 pessoas, o que é relevante para a dimensão económico-social da freguesia.
A Associação possui uma estrutura residencial para idosos, presta serviço de apoio domiciliário, apoio médico e de farmácia, escola de música. Desenvolve ainda o projeto “Alavanca” para acompanhamento próximo e regular da população alcoólica e tóxicodependente nos concelhos de Seia e Gouveia. Participa no projecto “Sabugueiro, Aldeia Inteligente”, em parceria com a Vodafone, Município de Seia e Junta de Freguesia. O principal objetivo deste projeto é a disponibilização de soluções tecnológicas na aldeia do Sabugueiro que contribuam para a melhoria de qualidade de vida dos cidadãos e que funcionem de alavanca para a melhoria do desempenho ambiental deste espaço rural.
Mais recentemente, esta Associação transformou o antigo Centro de Dia no Hostel Criativo do Sabugueiro, uma unidade hoteleira com capacidade para 34 pessoas, onde também se realizam residências artísticas.


2.
Até meados da década de 90, a agricultura e a pastorícia ainda eram atividades preponderantes, registando-se o cultivo das “courelas” mais junto ao povoado, sobretudo para legumes, batata e milho e, nos campos mais afastados do povoado e mais extensos, pelas encostas da serra, para as sementeiras de centeio. O trabalho era manual, muito duro e demorado, contando com o recurso a burros, quer para lavrar as terras, quer para transportar os produtos arrecadados ao campo. Segundo Alberto Martinho, sociólogo, natural do Sabugueiro, com vasta obra publicada, “em 1971 havia na aldeia 102 burros, 2 cavalos e 8 éguas, dispersos por 64% das casas. Em junho de 1998 havia na aldeia 19 burros, 2 éguas e 4 cavalos (dois são apenas usados para passeios turísticos”.
Estes animais de carga, serpenteavam pelos caminhos escarpados e difíceis e eram por isso de grande valor, transportando em segurança pesados fardos.
A pastorícia era também uma atividade preponderante desde tempos imemoriais. Os pastores, no tempo da neve, viam-se forçados a “invernar” para as chamadas “terras chãs”, levando consigo a família, incluindo filhos em idade escolar. Por lá permaneciam de novembro a fevereiro do ano seguinte, voltando com a Primavera. No pico do Verão, juntavam-se as “chotas” e faziam a transumância, ou seja, chegavam a juntar-se mais de mil ovelhas de vários pastores, para subirem à serra e aí, estes, “revezavam-se” na guarda do gado, permitindo algumas folgas.
Também até meados da década de 90, registavam-se na aldeia muitos trabalhadores das fábricas têxteis de Seia, sobretudo da Fisel e da Vodratex que, no total, com outras fábricas, chegaram a empregar cerca de 4 mil trabalhadores no concelho de Seia.
Segundo Alberto Martinho, “chegaram a contar-se na aldeia cerca de 30 motorizadas”, que era o principal veículo de transporte do Sabugueiro para as fábricas de Seia.
Ao longo das décadas de 70, 80 e 90, no rendimento das famílias registava-se um cenário acentuado de pluriatividade, ou seja, para além do rendimento das fábricas têxteis (e também da EDP e da Fábrica das Águas Serra da Estrela), os trabalhadores juntavam o rendimento da agricultura familiar. Por exemplo, todas as famílias semeavam centeio e coziam o pão no forno comunitário, onde o “forneiro” se encarregava de organizar as fornadas. Assim como havia o controle da levada de água, para as regas dos campos mais próximos da aldeia.
De fora, vinham as malhadeiras para a malha do centeio, nas eiras de pedra, onde os “rolheiros” de molhos de centeio empilhados, davam lugar aos palheiros. E na Festa da Senhora da Graça, oferecia-se centeio à Virgem, como forma de agradecimento pelas colheitas. Centeio que era depois leiloado, revertendo a receita para as festas da “Santa”. E todas as famílias possuíam arcaz de centeio na loja, para o pão no ano inteiro.
A partir da década de 70, “os das fábricas” transformaram-se também em novos resineiros e outros recoletavam bolbos “de flores” (Narcisos) que eram vendidos para o Porto e, por sua vez, exportados para a Holanda. Os mesmos também apanhavam bagas de zimbro que vendiam para serem misturadas na aguardente, vendida aos turistas (Martinho, 2008).
Com o fim do têxtil, uma mono-indústria que caracterizou durante décadas o concelho de Seia, e com a invasão de supermercados de média dimensão e consequente abandono agrícola, foram surgindo ao longo da Estrada Nacional 339 várias lojas comerciais vocacionadas para o turismo que rumava à Serra. Era outra transformação que se ia operando.
A primeira loja comercial destinada aos turistas tinha aberto as suas portas em 1959 e, em 1972, já eram 3 estabelecimentos (Martinho, 2008).

Foto de Manuel Ferreira
3.
Nos fins do século XIX, a penetração da Serra da Estrela começou a verificar-se através de excursões cientificamente organizadas. O Sabugueiro tornou-se estação obrigatória ou ponto de apoio e de passagem para os exploradores. De aldeia ignorada, tornou-se muito conhecida. Uma transformação decisiva e surpreendente, que foi em crescendo ao longo dos anos.
Do ponto de vista histórico e político-administrativo, podemos dizer que o Sabugueiro era uma freguesia independente, pelo menos em 1757, e assim o confirma o Código Administrativo de 1836. Porém, em 1936, foi anexada à de Seia, pelo que os seus habitantes fizeram esforços para obterem a devida autonomia e assim o conseguiram em 1946.
O Cadastro da população do Reino, mandado organizar por D. João III, em 1527, dava a Seia 1.168 moradores e ao Sabugueiro 19 (Bigotte, 1992). O Capitão Dr. António Dias, na sua "Monografia do Sabugueiro", insere uma inquirição em que D. Pascoal respondeu que nesta povoação eram possuidores de terras Mendo Carneiro, Pedro Viegas e Domingos Gonçalves, que não pagavam foro ao "Senhor Rei".
Em antigos documentos aparece chamada de "Vila de Sabugária". É por isso uma povoação muito antiga, de que dão notícias as Inquirições de D. Afonso II, em 1296, onde se chama "Sambugueiro", Sabugário e Sabugueiro (Bigotte, 1992).
Reza a história que esta freguesia surgiu a partir de um aglomerado de cabanas de pastores que aproveitavam os pastos para as suas ovelhas e cabras.

Foto de Manuel Ferreira
4.
Como se lê e constata, o Sabugueiro tem sido ao longo da sua história, uma aldeia em transformação, que vai às raízes da sua identidade, para se reinventar sucessivamente. Como que arrancando pedras duras e toscas da montanha, o homem de cada época foi moldando a sua faina na procura de sustento. Soube extrair da montanha, riqueza e sabedoria, na adaptação aos tempos, nesse imenso potencial de natureza brava e fria.
Agora, perscrutando o futuro, sobressai o anseio de resposta aos novos tempo, exigentes de requintes e de formas modelares, capazes de cruzar a tradição com a modernidade. No anseio e desejo de ver engenho e arte suficiente para ajudar a acordar um gigante meio adormecido, que é esta uma montanha de riqueza chamada serra da Estrela, com o Sabugueiro a meio.


Bibliografia:
Martinho, Alberto (2008), O Caixão das Almas
Bigotte, Quelhas (1992), Monografia da cidade e concelho de Seia
Martinho, Alberto (1978), O Pastoreio e o Queijo da Serra
Martinho, Alberto (1972), Sabugueiro, uma Aldeia da Serra da Estrela
Dias, Capitão Dr. António (1945), Monografia do Sabugueiro

Webgrafia:
Entidades:
Turismo de Portugal, Registo Nacional de Turismo
Freguesia do Sabugueiro:
Associação de Beneficência do Sabugueiro



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Hostel Criativo abre na aldeia de Sabugueiro, na Serra da Estrela



O antigo Centro de Dia da aldeia foi convertido em hostel com o objectivo de promover o turismo cultural, potenciando o intercâmbio entre comunidades artísticas e a comunidade local.
O antigo edifício do Centro de Dia de Sabugueiro, em Seia, na Serra da Estrela, reabriu as portas como hostel com o objectivo de "reforçar o turismo cultural e promover a economia social", foi esta terça-feira anunciado.
O Hostel Criativo "é o mais recente projecto da Associação de Beneficência do Sabugueiro, que resultou do aproveitamento do antigo edifício de Centro de Dia, localizado num lugar privilegiado da aldeia, designada a 'mais alta de Portugal'", disse à agência Lusa o presidente da direcção, Mário Jorge Branquinho.
Segundo o responsável, o Hostel Criativo do Sabugueiro, que foi criado com o apoio do Turismo de Portugal, assume-se como "uma unidade diferenciadora em plena Serra da Estrela".
Mário Jorge Branquinho adiantou tratar-se de "um espaço acolhedor, de conforto e de forte inspiração para acções criativas e de Residências Artísticas o ano todo, em plena Serra da Estrela".
A unidade hoteleira é também um projecto que surgiu enquadrado "numa estratégia de economia social" daquela instituição de solidariedade social, do concelho de Seia, "de apoio a camadas mais desfavorecidas da região", disse.
O novo hostel dispõe de camas em quartos com beliches e de camas individuais que acomodam quatro a sete pessoas, e de dois quartos duplos, com uma capacidade total para 33 pessoas.
Também possui uma sala de convívio, "onde se realizam exposições, tertúlias, exibição de filmes e outras actividades, e uma marquise para descanso ou actividades criativas, como sejam pintura, escrita criativa, composição musical ou outras", acrescenta a fonte.
O equipamento está ainda dotado com cozinha, 'wi-fi' gratuito e aquecimento geral, entre outros suportes de conforto.
"Com este novo projecto, que é diferente de todos os que existem na região, a Associação de Beneficência do Sabugueiro tem como objectivos promover as artes e a cultura, inspiradas nos recursos do território regional, fomentando o intercâmbio entre comunidades de artistas, pensadores e criativos e a comunidade local/ regional", segundo o seu presidente.
O projecto visa também "fomentar o conhecimento das potencialidades naturais do território, através da oferta de experiências baseadas no turismo cultural e de natureza".
Fomentar a participação da comunidade local e o intercâmbio com os turistas, combater a sazonalidade do turismo na região de intervenção e contribuir para o aumento da estada média dos turistas, são outros dos propósitos que estiveram na origem da criação do novo equipamento hoteleiro.
Com a obra, a Associação de Beneficência do Sabugueiro "prossegue a sua missão social", uma vez que o hostel "pretende ser uma nova fonte de rendimento para a instituição, enquadrada na chamada 'economia social'", refere a direcção.

Lusa 12 de Fevereiro de 2019, 14:28 – Jornal Público

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Serra da Estrela, esta serra que se escreve assim


A serra é alta, enigmática e a sua aparência é tão suave como o canto do mocho em vias de extinção. A serra é fria e a brisa que sopra por entre as penedias desta escrita é leve e leva-me a procurar descrevê-la. Por outro lado, a serra apresenta-se vestida de mil cores, pintada por inúmeros pintores, à espera de curiosos turistas ou de pessoas locais, que sem sair para fora, podem viajar cá dentro!

A curiosidade é sempre boa conselheira, bailando connosco nas andanças verdejantes nos extensos campos da serra, onde serpenteiam surpresas vivas e saudáveis sensações. Saber o que está para lá dos montes, por baixo das pontes, no fundo das lagoas, nas encostas empedradas, no fundo dos rios ou nas vulvas das flores que brotam do rosmaninho, são prazeres que extasiam.

No servum que serve de acolchoado, saltitam gafanhotos de contentamento em dias primaveris, sem chuva e sem vento, já que a maior parte do tempo, o manto branco da neve cobre tudo. Articulado entre paz e natureza, está a leve harmonia de sensações capazes das maiores atracções e libertações. 

São belezas atractivas adjacentes ao supra citado articulado e que aqui se realça, com a mesma profundidade com que se eleva a grandiosidade desta serra imponente. E não se pode dizer que não há grandeza na simplicidade destes fenómenos naturais, com a mesma transparência com que correm as águas cristalinas dos ribeiros atrevidos. É imensa a força da raiz desta tela pintada, onde também
há pessoas que vivem e sentem o pulsar que marca o compasso da natureza. Enfim o quadro é lindo e a pintura não pode ser borrada!

MJB, in O Mundo dos Apartes, Seia, Maio 2002


@MárioBranquinho

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Dependências novas



Dependemos muito de muita coisa e cada coisa faz-nos cada vez mais falta, como nenhuma falta nos faz tanta coisa que dantes nos fazia. Quem tem mais de quarenta sabe do que falo, e não é de saudosismo nem de certas militâncias ativas, mas tão só daquilo que antes era e já não é. Do que não passávamos sem ter, em contraponto com aquilo que já não passamos sem ter, ver ou fazer.

Tanto hábito perdido, tanta dependência trocada, para por fim, sem darmos por isso, substituímos por outras e mais outras, no correr dos dias ditos modernos. Escrevi no meu segundo livro, em 2002, a crónicas tantas, que “eu ainda era do tempo das cabines telefónicas”. Uma dependência de cartões de carregamento ou moedas, que em pouco tempo se transformou na dependência directa dos telemóveis e afins. Por onde quer que se vá, todo o mundo se vai na concentração do celularzinho. E não há volta a dar, seja de metro, autocarro, carro, ou em casa, na cama, no campo, na água, por todo o lado, à chuva e ao sol, conforme os casos de dependência. Todos conectados, concentrados e abstractos do que está à volta. Em cada pessoa um vício, e em cada vicio um grau maior de dependência, até nem darmos por isso e ser banal.

Não tenho certeza, mas não duvido que a literatura, em contraponto baixou e a literacia acompanhou a queda, proporcional à ligeireza das causas virtuais. A dependência da poluição visual, das torrentes informativas, de leads e títulos atinge picos nunca dantes vistos ou imaginados, ao ponto de retirar vida à sã convivência. E como qualquer dependência, corrói e faz mossa, nesta mola que sobe e desce a entreter o pagode.

Sobra a esperança de voltarmos a conversar, concentrados nos olhos dos outros, na essência das palavras, na raiz dos valores, sem as distracções de virtuais tentações de permeio, que pelo meio enxameiam a mente e distorcem tudo.

Já nem falo dos viciados no jogo, que usam fraldas para não interromperem e engordam sem sair do lugar, a rebentar pelas costuras. Ou de quando, cada um em cada compartimento da casa, manda e recebe mensagens no telemóvel, em diversas aplicações, com várias conversas em simultâneo, e simultaneamente vendo série ou filme no PC, com a TV ligada e a musica no ar e tudo e mais alguma coisa ao mesmo tempo e o olho no micro-ondas ou na máquina de lavar. Em casa, no carro, no trabalho ou em férias, onde quer que seja, sempre ou quase sempre, na louca fúria de viver e sentir, sem dispensar a virtuosa rotina virtual que anima os dias e aquece as almas. Dando permissão para tudo, na violação grosseira de privacidade, que a droga obriga e a mente pede e não dispensa.

É o vício, é o vício! Falta ver que novas dependências traz o bicho, porque a ciência não para de descobrir e o homem quer sempre mais, na onda do caminho, para onde todos vão em carreiro, em ambiente porreiro. É o que está a dar! E depois destas, outras dependências virão, que o mundo não acaba aqui.
Mário Branquinho, 30 maio 2018

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Conferência Comunidades e Florestas Resilientes, dia 21de outubro em Seia


Comunidades e Florestas Resilientes é o tema da Conferência que vai decorrer no Auditório do CISE - Centro de Interpretação da Serra da Estrela, em Seia, no próximo dia 21 de outubro, integrada nas atividades paralelas do CineEco 2017. 
A sessão de abertura será presidida pela Secretária de Estado do Ordenamento e da Conservação da Natureza, Célia Ramos.

A conferência, no painel da manhã, tem como convidado para a abertura dos trabalhos o Professor Luis Filipe Gomes Lopes, Professor e Diretor da Licenciatura em Engenharia Florestal da UTAD - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro. Seguindo-se a intervenção um painel de convidados que vão dar a conhecer um conjunto de projetos que mobilizam a sociedade civil em prol de uma floresta mais sustentável.
Nomes como Marta Pinto, Coordenadora do Grupo de Estudos Ambientais da Universidade Católica Portuguesa – Porto, Pedro Sousa, Coordenador do Projeto Floresta Comum – da QUERCUS, Elizabete Marchante, investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, Nelson Matos coordenador do  Projeto Forest – in, são alguns dos oradores que vão inspirar a plateia, pela paixão e empenho com que abraçam estes projetos de grande envolvimento comunitário.
O período da tarde, já focado na criação de valor económico na Floresta, tem como convidado para a abertuta de painel Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista e cronista. Seguindo-se um conjunto de projetos empresariais que evidenciam o potencial económico da floresta. Carlos Fonseca professor Associado na universidade de Aveiro, estárá nesta conferência na qualidade de empreendedor. João Nunes administrador e CEO da Associação BLC3 - Campus de Tecnologia e InovaçãoBLC3, vai falar-nos sobre um dos mais recentes projetos, Centro Bio, em desenvolvimento na incubadora portuguesa de Oliveira do Hospital que ganhou o prémio Regio Stars 2016.

Miguel Ramos vai apresentar a MycoTrend uma startup especializada no estabelecimento de plantações de cogumelos silvestres e na produção e venda de plantas micorrizadas para produção de cogumelos comestíveis. Um projeto alinhado com a inovação mundial para o cultivo de cogumelos silvestres quer pela tecnologia incorporada quer pelas espécies cultivadas.

O encerramento do painel cabe a Pedro Serra Ramos, Presidente da ANEFA - Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente, uma associação que representa um universo de micro, pequenas e médias empresas de serviços, com um volume de emprego correspondente a cerca de 9.000 postos de trabalho permanente e um volume de negócios anual superior a 500 milhões de euros.

Carlos Filipe Camelo, Presidente da Câmara Municipal de Seia fará o encerramento da conferência neste dia, estando ainda prevista para o dia seguinte uma saída de campo no Parque Natural da serra da Estrela com a apresentação do projeto Life Relict- Preserving Continental Laurissilva Relics, um Projeto em implementação no concelho de Seia que tem como parceiros a Universidade de Évora, o Município de Seia, o Município de Monchique e o CITYTEX Centro de Investigación Científicas y Tecnológicas de Extremadura, que pretende recuperar o habitat prioritário 5230 – comunidades arborescentes de Laurus nobilis, na Rede Natura 2000. No caso de Seia, refere-se à recuperação do habitat de Azereiro na Cabeça e Casal do Rei.

De destacar que faz parte do programa da conferência um almoço de menú sutentável. O desafio é criar algo verdadeiramente delicioso valorizando a produção local e os mercados de proximidade. Um conceito que valoriza o slow food em aposição às dietas modernas de fast-food, com fortes pegadas de carbono e com grande influência no agravamento das alterações climáticas.


A conferência integra o conjunto de atividades e eventos que consubstanciam o Festival iNature no qual se destaca o mais prestigiado Festival Internacional de Vídeo de Ambiente o CINE ECO que decorre em Seia de 14 a 21 de outubro. Esta é uma ação do Plano de Animação para a áreas protegida da serra da Estrela enquadrada na EEC PROVERE iNature, cofinanciada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do CENTRO 2020 - Programa Operacional Regional do Centro. 

Festival CineEco começa no sábado em Seia com 100 filmes em competição


A edição de 2017 do CineEco - Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, que começa no sábado em Seia, conta com 100 filmes em competição, oriundos de mais de 25 países, foi hoje anunciado.

O festival, que vai decorrer até ao dia 21 com a temática "Tudo pode mudar: Oceanos, Clima e Economia", também inclui a estreia em Portugal do filme "Uma Verdade (Mais) Inconveniente", de Bonni Cohen e Jon Shenk.

Segundo o diretor do CineEco, Mário Jorge Branquinho, o filme "Uma Verdade (Mais) Inconveniente", passa no dia 18 e "dá sequência ao documentário de 2006 no qual o ex-vice-presidente dos Estados Unidos faz uma análise sobre a crise climática mundial".

"Após a decisão de Donald Trump em retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, Al Gore, ex-vice-presidente do país e protagonista do documentário, pronunciou-se nas suas redes sociais criticando a decisão. O filme mostra a negociação feita há um ano e meio, envolvendo 200 países, com o objetivo de impedir o avanço do aquecimento global através da redução das emissões de gases poluentes na atmosfera", é explicado.

A edição deste ano do CineEco, que vai decorrer na Casa da Cultura de Seia, no distrito da Guarda, é inspirada no livro "Tudo Pode Mudar: Capitalismo vs Clima", de Naomi Klein.


Segundo a organização, em competição estará a obra "A Idade das Consequências", de Jared P. Scott, que "investiga como a mudança climática afeta a escassez de recursos, a migração e o conflito através da lente da segurança nacional dos Estados Unidos da América e da estabilidade global".

Será também exibido o filme "Rio Azul: Pode a Moda Salvar o Planeta?", de David McIlvride e Roger Williams, que "mostrará a forma como a indústrias da moda, dos tecidos e dos 'jeans' se tornaram nas grandes poluidoras das águas e do ambiente".

E, "acompanhando as notícias recentes sobre a poluição dos oceanos", a película "Ondas Brancas", de Inka Reichert, apresentará "o combate e a reação dos surfistas de vários pontos do globo contra a inadvertida contaminação dos oceanos".

Ainda no tema dos oceanos, será apresentado em Seia o filme "Perseguindo Corais", de Jeff Orlowski, que "viaja pelo mundo mostrando como os recifes estão a desaparecer a uma taxa sem precedentes", é indicado.

O 23.º CineEco albergará uma vasta programação de longas e curtas-metragens, documentários, reportagens de televisão, a par de uma competição dedicada aos filmes lusófonos, da região e um programa de sessões especiais.

O festival abre no sábado, às 18:00, com o filme "A Odisseia", de Jérôme Salle, uma sessão especial sobre a vida de Jacques-Yves Cousteau.

Pelas 21:30, decorrerá a abertura oficial, com a exibição do histórico filme "Os Lobos", de Rino Lupo, musicado ao vivo pelo pianista Nicholas McNair.


O CineEco, um dos mais antigos festivais de cinema de ambiente do mundo, é organizado pelo município de Seia, na Serra da Estrela.

DN, 10/10/2017


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Terminei hoje um ciclo político

O meu discurso de hoje na Assembleia Municipal da Seia

"Termino hoje, aqui e agora, um ciclo político que iniciei há 12 anos enquanto deputado na Assembleia Municipal de Seia, em 3 mandatos, dois dos quais como líder de bancada do PS. 
Doze anos mais quatro seriam dezasseis anos e, por entender ser já longo o tempo, decidi, em consciência e com a sensação de missão cumprida, colocar um ponto final neste ciclo.

Uma caminhada que muito me honrou, pela oportunidade que o meu partido me deu, a partir desta tribuna, de dar contributos para o Concelho onde sempre vivi, vivo e trabalho.
Desde que tenho consciência de mim, que me fui envolvendo na defesa de valores que considerei desde sempre fundamentais, quer no plano profissional, enquanto trabalhador do município, quer no quadro de cidadania, enquanto dirigente associativo e, naturalmente, na política, usando o tempo disponível, através do exercício dos cargos para que fui eleito.

Valores assentes, fundamentalmente, na defesa da dignidade humana, do valor do trabalho, do respeito para com o outro, do bem comum. Quem me conhece, sabe que é assim, sabe que tem sido esta a minha forma de actuar.

Neste tempo, além de 12 anos de Assembleia Municipal, registo ainda 30 anos de militância no PS, com várias participações em cargos políticos concelhios e distritais e, neste mandato, a Presidência da Assembleia da CIMBSE. Currículo e obra feita e publicada.

Na minha profunda convicção, fui defendendo aquilo que eu próprio julgava ser o essencial e o fundamental.

Na qualidade de deputado municipal, desde 2005 que intervenho activamente nessa defesa, de diferentes modos. Assumi a função e a militância como uma outra família. Aquela que também defendi em todas as circunstâncias. Aquela que tomou parte do meu tempo, da minha vida, numa entrega total.

Na política, com espírito de missão, travei inúmeros combates, sempre na defesa do que julgava ser o melhor. No confronto com os adversários políticos, dos vários partidos, onde todos procuram fazer o seu melhor. E vivi a política por dentro, as suas virtudes e as “manhas”, dando a cara pelos projetos e ideias em que acreditava. Nem tudo foi fácil. Nem sempre saí vencedor. Contudo, sempre o fiz e me pautei pelas mesmas convicções. Aquelas que ainda hoje me orientam na procura do melhor caminho, das melhores soluções.

Mas hoje é o dia em que me despeço, perante esta Assembleia onde cada um faz o que pode e sabe pela causa pública, pela defesa do interesse público, pela defesa da população local, pela defesa, intransigente, das pessoas e dos valores.

Por mim, procurei influenciar naquilo que considerava ser o melhor caminho, a melhor estratégia. Com espírito crítico e olhar atento. Convicto da importância de Seia no quadro da nossa região, numa perspectiva global, de quem a vê num lugar universal, defronte para o mundo e não numa perspetiva redutora ou provinciana. Com entrega, com paixão e persistência, sem nunca partir para outra terra, procurando sempre fazer o melhor pela sua, a partir deste lugar de eleição que hoje deixo.

Mesmo na adversidade, interna ou externa, nunca baixei os braços. Nunca esmoreci, mesmo quando tudo parecia ruir. Quando se perdiam serviços pelo centralismo avassalador que marca o espectro politico português. Reconhecendo as inúmeras adversidades de um território do Interior onde é quase heroico fazer política. Mas onde a marca que cada um de nós deixa é fundamental, sendo imperioso cada um saber se cumpre ou não a função.

Independentemente das adversidades e das pedras no caminho, fui seguindo, seguro e sempre com a mesma vontade. Porque o caminho também proporcionou momentos de felicidade, de conquistas. E cada passo em frente, neste território longínquo é sempre uma conquista. Onde tudo custa muito e o pouco custa sempre mais. Mas onde não se pode vacilar, nem recuar. Onde se redobra o empenho, o engenho e a vontade.

Da minha parte, é com essa vontade, que nunca me abandona, que me despeço. E o faço com a emoção de quem deixa a sua casa. Aquela que ajudou a erguer, passo a passo, na defesa e na luta pelo bem comum.

Um agradecimento a todos pela amizade e solidariedade.

Um agradecimento particular ao Filipe Camelo, que em mim depositou a confiança para levar a “bom porto” os meus mandatos nesta Assembleia. Ao teu lado combati. Na tua ausência te defendi. Sempre convicto de que farias o que estivesse ao teu alcance para defenderes um território e uma população.

Aqui chegado, reafirmo o melhor para o nosso Concelho, em prol do seu desenvolvimento, na certeza de que só com emprego se promove o futuro.

Na certeza, também, de que os lugares são feitos pelas pessoas, pelas empresas e entidades. Onde todos contam.

Na certeza de que os territórios, as cidades competem uns com os outros com o objectivo de melhorar a qualidade de vida dos residentes, mas também para atrair pessoas, visitantes turistas e investimentos.

Na certeza da crescente importância da sutentabilidade e qualidade de vida nas cidades, na qual Seia se enquadra na perfeição e na ambição desejável que vem praticando.

Confiança no futuro é o que reafirmo enquanto cidadão e agente de desenvolvimento que sou e pretendo continuar a ser no quadro da cidadania. Já que, da política, apenas poderei dizer que “vou andar por aí”.

E, para terminar, ocorre-me um pensamento de Fernando Pessoa que resume emoções, sentimentos e percepções que foram resultando em mim, nesta caminhada política que agora termina:

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Obrigado a todos.

Seia, 15 de setembro de 2017


Mário Jorge Branquinho

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

23ª EDIÇÃO DO CINEECO DIVULGA SELEÇÃO OFICIAL


Inspirada numa das mais importantes obras sobre alterações climáticas, de Naomi Klein, a edição de 2017 do CineEco - Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, centra-se na ideia de que “Tudo pode mudar: Oceanos, Clima e Economia” e coloca 100 filmes em exibição dos mais de 500 rececionados.

Em Seia, de 14 a 21 de outubro, estarão em competição, nas várias categorias do Festival, películas oriundas de mais de 25 países. Desde Longas e Curtas, Documentários e Reportagens de Televisão, Regionais, Nacionais e Internacionais, são 100, as películas que serão exibidas na Casa da Cultura de Seia durante uma semana.

O livro “Tudo Pode Mudar: Capitalismo vs Clima de Naomi Klein, considerado um dos mais importantes alguma vez escritos sobre alterações climáticas, e o documentário de Avi Lewis, que conta com a participação da famosa economista, foram a inspiração para esta 23ª edição.

O pressuposto de que Tudo Pode Mudar é partilhado pelo Festival ao considerar possível renunciar à obsessão do crescimento a curto prazo, por nos impedir de criar um sistema económico e social ao qual o termo 'sustentável' se possa aplicar com justiça e igualdade. Foi com esta premissa que foi pensada e estruturada a programação e a Seleção Oficial 2017 tornada agora pública.


Este documentário de Avi Lewis, ‘This Changes Everything” no original, vai aliás fazer a pré-abertura do CineEco 2017 a 15 de setembro (fora da competição), marcando o lançamento de várias atividades que vão acontecer por toda a cidade e que culminarão com a sessão oficial de abertura do Festival a 14 de outubro.

A Sessão de Abertura, vai ter lugar no sábado, 14 de outubro às 21h30, simbolicamente com a projeção do clássico do cinema mudo português ‘Os Lobos’,  de Rino Lupo (1923), um drama rodado no ambiente rural das gentes de Seia, na Serra da Estrela e com a partitura musical de António Tomas de Lima, composta em 1925.

A partir daí vão ser apresentadas as várias Competições: Longas e Curtas Internacionais, Longas e Curtas em Língua Portuguesa, Documentários e Reportagens de Televisão, Panorama Regional. A Seleção Oficial do CineEco 2017 completa pode ser consultada em www.cineeco.pt.

As Sessões Especiais acontecerão igualmente durante esta semana, onde se destacam, bem a propósito, filmes como o novo “Uma Sequela Inconveniente: A Verdade Para o Poder”, de Al Gore, realizado por Bonni Cohen e John Shenk, e “A Odisseia”, de Jérome Salle, sobre a vida e obra do oceanógrafo Jean-Yves Cousteau. Uma especial atenção ainda para uma ampla programação de Sessões Matinais de Curtinhas Ambientais e filmes de animação dedicadas ao público infantil, com filmes como: “Amarelinho”, de Christian de Vita e “A Canção do Mar”, de Tomm Moore.

Para além dos Prémios considerados no Regulamento para as competições internacionais longas e curtas, séries televisivas e filmes de língua portuguesa, este ano está previsto haver Prémios Especiais para filmes com diferentes abordagens sobre a Água. Filmes esses que vão ser exibidos durante o Fórum Mundial da Água, que decorrerá em 2018 em Brasília, no quadro da participação de Seia e do CineEco nesta importante cimeira.
O CineEco 2017, é organizado como habitualmente pelo município de Seia sendo este ano reforçado pela valorização dos recursos naturais preconizada pelo Festival iNATURE Serra da Estrela e que estará bem patente as atividades paralelas do Festival, como nas comemorações que antecedem a semana do CineEco.


O CineEco é um dos mais antigos festivais de cinema de ambiente do mundo e integra a Green Film Network, uma plataforma de 40 festivais, da qual é igualmente membro fundador.