domingo, 15 de janeiro de 2017

Contributo para a compreensão do itinerário literário de Mário Jorge Branquinho


Trabalho de Sofia Miranda, Docente do Ensino Superior 

Ler Mário Jorge convoca-nos a um exercício de compreensão de um estilo singular fruto de uma dedicação quase obstinada a uma espécie de catarse libertadora, pelo prazer e pela necessidade de verter no papel as inquietações da alma. A evolução, quando confrontamos as obras, é notória, pelos temas objeto da sua escrita, mas sobretudo pela escrita de persi que o mesmo procurou refinar através do tempo, recorrendo a uma maior abstração e ao emprego de termos que nos convidam a uma constante decifração dos significados. As palavras, escolhidas intencionalmente, encaixam umas nas outras como num puzzle, numa cadência menor ou maior, consoante o ritmo que o autor lhes quis emprestar. E este é assumido pelo próprio como algo importante na sua forma de estar no palco da escrita.
  


O primeiro livro, Sentido Figurado, publicado em 1996, marca formalmente o seu nascimento no mundo literário, onde o mesmo sublinha a insegurança inerente a quem se lança nestes desafios da escrita, sem saber ou duvidando se os mesmos obterão concretização, ainda que não tenha correspondência real porque a virtude mora lá e desde sempre. A obra é marcada por um forte impressionismo, aliás recorrente ou inolvidado nas obras seguintes, que o Branquinho assume pelo gosto, pelo prazer de viajar, de descobrir ou redescobrir os locais, as gentes que marcaram o seu crescimento, numa paleta de cores que vai fazendo questão de acentuar aqui e acolá, num exercício de pura contemplação.

Como emerge através da personagem central, “o contacto com a natureza, já se sabe, é o seu forte!” Tais lugares e gentes constituem  para o autor o seu porto seguro, onde se sente bem, e a que tem necessidade de retornar. Ressurgem em imagens associadas a expressões de cariz vincadamente popular e até brejeiro, claramente assumidas, pinceladas por uma certa ironia, tudo emprestando à sua escrita um caráter singular que não deixa o leitor indiferente, convocando-o a vivenciar diferentes sentimentos.

A personagem Micas constitui um elo de ligação entre os diferentes textos, bem conseguido, fazendo igualmente sobressair a necessidade que o autor tem de regressar à sua condição mais básica, mais elementar, e que constitui para si um porto seguro, como já referido, algo que o devolve ao equilíbrio que o mesmo sabe poder perder no turbilhão da sua ânsia de dizer. A mesma pode-nos ainda levar eventualmente à perceção da importância do elemento feminino na sua vida. Sobressaem, aqui e ali, apontamentos autobiográficos evidenciando uma personalidade inquieta, desafiadora, em constante procura, ao mesmo tempo que se destaca uma necessidade reiterada de racionalizar as emoções, as  inquietações e as constatações. Esta sua necessidade convive assim paredes meias com um lado mais centrado nas perceções imediatas, mas em si mesmas insuficientes, limitadoras.

A dialética é uma constante: entre o ser e o dever ser; entre o pensamento e a concretização; o real e o imaginário; o querer ser e o não dever ser ou dizer. Destarte, a angústia é evidente e permanente em si, mas sem nunca o demover do seu propósito desafiador ainda que isso lhe traga ou possa trazer dissabores. Reservado nas demonstrações, introspectivo ou, como ele próprio diz, um “espírito solitário”,  mas determinado a vencer-se, a ultrapassar obstáculos, a ser o eu por si almejado através da sua própria revelação. As “fraquezas” da personalidade não o limitam. Pelo contrário. A vontade fá-lo suplantar-se a si próprio. Não receia as consequências do seu dizer: “ Indeciso, desconcertante mas firme”. Entenda-se que a indecisão é apenas o ponto de partida culminando necessariamente na firmeza do dizer e do fazer. Existe em si uma grande necessidade de materialização, de concretização relativamente ao que diz. A sua grande capacidade de trabalho é prova disso mesmo. Os vários palcos em que se move constituem o suporte de um dizer com propriedade, de uma experiência feita.

As motivações são muitas, mas sobressaem temas ligados à política, à causa pública, aos valores sociais que lhe são caros, fazendo da ética ou da falta dela o palco privilegiado da sua crítica, aqui e ali, algo ou bastante mordaz, às vezes encoberta por uma ironia subtil ou um humor desconcertante. Vejam-se as crónicas dedicadas aos Presidentes.

Ainda que a escrita, em termos formais, não seja o elemento mais trabalhado, deliberadamente, sobressai já nesta primeira obra a vontade de se desafiar nas e através das palavras, para emprestar ritmo ao texto, para se fazer ouvir, sublinhando sobretudo a vontade de se revelar através da escrita, num exercício libertador inerente à sua própria natureza. É um prelúdio, é uma chamada de atenção, convocando os leitores para a leitura e o comentário que, de modo algum, farão obscurecer a sua vontade, plena de capacidade, de alguém que já existe antes de afirmar a sua existência. Diríamos que, mais do que o sentido figurado que nem sempre o é, o autor fala-nos do “sentido das coisas”, ou melhor, do “estado das coisas” para dar sentido à sua própria vida.


Na sua segunda obra, O Mundo dos Apartes, volvidos seis anos sobre a primeira, a evolução é significativa, sobressaindo uma escrita mais erudita, por vontade própria, mantendo-se, no essencial, as temáticas abordadas. Nota-se um crescimento, uma maior maturidade fruto da vontade, da intencionalidade, do afinco na procura, das experiências da vida, resultando numa maior consistência ditada pela crescente segurança nas suas convicções e nas perceções do que o rodeia, do seu justo valor.

Ler os textos ou crónicas nesta fase é um exercício que nos convoca a todos a um esforço intelectual de decifração e de ligação dos significantes perante os possíveis significados, num jogo inebriante, que nos transpõe para um mundo quase musical, poético, que as palavras transportam, recheado de subtilezas e levezas, envoltas, bastas vezes, numa ironia estonteante ou desconcertante, ora nos prendendo ora nos soltando. Citando as palavras de Fernando Marques Carmino, na obra em que traduz Pierre Hourcade sobre o poeta Pessoa, é uma “prosa de sabor poético”. A grafia e a fonética foram claramente e assumidamente trabalhadas para resultar em textos algo mágicos, fazendo-nos sucumbir nos movimentos de uma dança de palavras, tanto suaves como frenéticos, que nos fazem querer entrar no seu mundo, como nesta frase que se transcreve: “São acelerações e mais acelerações. Acordar a correr e correr para o banho, sem esquecer o esquentador e a toalha à mão e avançar para o fogão, de fervedor na mão, beber de um safanão e sair ao repelão.” Repare-se na cadência, no ritmo, também propositado, na rima constante. Mas o autor não se limita à mera incorporação das palavras no texto. Explica como chegou a elas, os seus possíveis significados, a sua posição, enquadrando-as logo de seguida numa qualquer realidade que o leitor facilmente reconhecerá. Veja-se o texto sob a epígrafe “Palavras ao Vento”.

A personalidade marcante do autor trespassa as linhas do tempo sem sucumbir em nenhuma delas, para dar lugar, no entanto, a novas composições e construções. A inquietação, porque lhe é inerente, mantém a sua centralidade nos textos, reforçada no seu vigor, na vontade de ir sempre mais além, de se superar, provocando e apelando concomitantemente à reflexão e à intervenção do leitor. Exercício sistemático, paradoxalmente solitário, pois as respostas chamadas à colação sabe-as o autor de antemão. Também como ali, aqui, muitas das vezes é apenas para sossegar a alma. A esperança reside dentro de si no sentido de que algo possa mudar para melhor, se houver reflexão ou consciência das verdades que se impõem, recusando-se, de forma quase obstinada, à aceitação passiva de um status quo. Espera assim não “pregar aos peixes” como Santo António, ainda que o próprio disso faça graça.

O autor é ou continua a ser um observador constante e atento da sua gente e do seu quotidiano, da sua terra, defendendo intransigentemente, porque lhe correm na alma e no corpo, os valores a esses lugares comuns associados, sempre implícitos e explícitos na obra, recusando o seu esquecimento, por vezes travestido de calorosas palavras circunstanciais proferidas por aqueles que bem conhece, na perspetiva de captação de dividendos. Recusa assim que “os seus”, fruto da interioridade, sejam catalogados através de qualificativos pouco recomendáveis e aceitáveis, valorizando a simplicidade e a autenticidade que vão rareando.

Há, sem hesitação, uma genuína e inabalável defesa das origens, das marcas que o/nos sustentam, que muitos camuflam em nome das vaidades ou ambições desmedidas. Não é o seu caso. A crítica ou o comentário político estão assim muito presentes, implícita ou explicitamente, nos textos, área aliás em que se sente muito à vontade fruto de uma experiência vivida. Temas que aborda ora com elevada erudição ora com simplicidade, envolvidos com ironia e humor que desconcertam qualquer leitor ou que, pelo menos, não o deixa indiferente, levando-o, vezes sem conta, ou as que forem necessárias, a esboçar sorrisos ou risos, impelindo-nos a novas leituras, as que se seguem no livro. O retrato impressionista, consequência deste seu apego à terra, mantém a sua presença nesta obra, muito em particular quando fala da sua serra (Serra da Estrela).

Não restam dúvidas sobre a inegável capacidade literária de Mário Jorge Branquinho, porque não há como negá-la perante a materialização alcançada, sem nunca abandonar a sua premissa, a sua palavra de ordem ou desordem: inquietação. E sem que com isto queira ou ouse chegar a algum lugar, mas tão só divagar, despertar consciências, libertar, para depois… não sair do lugar, a que sempre retornará nas suas viagens, umas imaginárias outras reais.

O Mundo dos Apartes é um notável conjunto de textos ou crónicas, que nos oferecem de tudo um pouco, por vezes lugares comuns, e que nos impelem a mais leituras. Como diria o autor “palavra de honra” que é verdade! Lembra a obra, aparte as especificidades de cada um, de Jean-Paul Sartre, consubstanciada no seu livro  As palavras, texto autobiográfico, de um estilo inconfundível, mas igualmente inebriante, que nos aponta o caminho da crítica livre. A forma como Sartre se retrata, sem pudor e sem receio de mostrar as suas limitações, é fascinante: ”Virtuoso por comédia, nunca me esforço ou constranjo: invento. Possuo a principesca liberdade do actor que mantém o público em suspenso e aprimora o seu papel; adoram-me, portanto sou adorável. Nada mais simples, se o mundo é bem feito. Dizem-me que sou belo, e eu acredito. Há já algum tempo que trago no olho direito a belida que me deixará zarolho e vesgo, mas por ora nada aparece.” É esta forma simples, corajosa, despudorada, de falar de si como se fala dos outros, com um humor refinado que nos prende aos textos que carateriza alguns escritores nos quais incluo Mário Jorge Branquinho sem qualquer hesitação.


A terceira e última obra de Mário Jorge Branquinho, Estranhos Dias à Janela, decorridos doze anos sobre a primeira, editada em 2015, é simultaneamente um exercício de continuidade e de ampliação quanto às temáticas e aos horizontes que o mesmo procura abordar e alcançar nas suas incessantes viagens de ida e de volta, ainda que balizadas em termos de concretização por um hiato temporal significativo. Horizontes focados através das várias “janelas” em que se observa e observa o que o rodeia ou o que anseia, qual púlpitos prestes a acolher quem tanto tem para dizer, de si e dos outros.

Temas como as causas públicas, a sua visão sobre o homem e o seu quotidiano, continuam a ser objeto de análise e crítica reflexiva. As suas gentes e os seus lugares nunca são no entanto olvidados, aqui e ali, sem ordem de prioridade cronológica porque a eles sempre voltará, por apelo e por afeto. Contudo, a sua análise crítica vai extravasando, nos seus limites geográficos e temáticos, o âmbito puramente local ou regional, assumindo um alcance mais global, acompanhando a inexorável realidade ditada pela evolução tecnológica e como consequência das suas próprias intervenções e experiências de vida, muito ligadas, nos últimos anos, ao mundo cinéfilo. Veja-se o texto sob a epígrafe “E tudo mudou”.

A inquietação continua a manter a sua centralidade, perpassando todos os textos como algo que é inerente à personalidade do escritor e que ele assume sem qualquer hesitação. Entre o ser e o parecer, o ir e o ficar, o ver e o fazer, tudo é algo e o contrário de si mesmo. É notória, como o foi nas obras anteriores, uma personalidade dividida entre um eu racional e um eu mais sensorial, este último das pulsões, dos impulsos, dos desejos. O lado mais racional do autor impede-o de se lançar em aventuras irrefletidas, de um só sentido, sendo materializado nas suas análises críticas acerca do comportamento humano, no que concerne nomeadamente à falta de ética, de empenho, de zelo, de ambição, no querer fazer bem. Veja-se o texto intitulado “Brio”.

As diferentes realizações profissionais do autor falam por si, consubstanciando os valores pelo mesmo defendidos e interiorizados. Este lado mais racional coabita assim com um lado mais emocional, sensorial, que o leva a partir e a regressar, a viajar sem sair do lugar. Este último materializa-se nos impulsos, nos desejos assumidos mas que apenas obtêm realização no seu imaginário, nas suas viagens, em que deambula, vagueia, anseia, mas sabendo de antemão que é apenas isso. Estas são as viagens sonhadas, pinceladas de apontamentos reais de outras viagens vividas e, mesmo naquelas, define, consciente ou inconscientemente, o seu regresso, mesmo naquelas, poucas, em que mostra de forma indelével o seu lado mais íntimo, quando nomeadamente diz “…porque amanhã é outro dia e cada um irá à sua vida.”

Como é natural, a idade vai deixando as suas marcas no autor ao tomar consciência e expressar o facto de que já passaram muitos anos, sem que no entanto a inquietação refreie no seu vigor, no seu ímpeto. As dúvidas acentuam-se porque tem consciência do efémero, do tempo que urge e não espera pelas definições e pelas concretizações. “Meia-idade” é disso testemunho. Nesta obra, o conteúdo e forma surgem congraçados de forma harmoniosa, pois também o estilo evolui, se refina, para dizer o que se tem a dizer com propriedade.

Em jeito de síntese, estamos perante um autor marcado por uma personalidade não direi dual, mas constituída por duas facetas igualmente marcantes, onde a racionalidade e a emoção se interligam para resultar num equilíbrio essencial que nunca o deixa perder o leme do seu barco, conduzindo assim o leitor por entre as ondas, as paisagens fascinantes, a um porto seguro.  Alguém que vai desbravando terreno, indo sempre um pouco mais além, mas seguro de si. A escrita, no seu estilo, na sua forma, é sem dúvida singular quando combina magistralmente as palavras, sentindo o leitor o prazer da leitura, séria nos propósitos, mas pincelada de um humor inebriante e até desconcertante.

Nenhuma das obras do autor deve ser secundarizada. Todas elas nos permitem compreender ou apreender a globalidade do pensamento do criador. Por exemplo, a personagem Micas, presente na primeira obra, representa a segurança, o equilíbrio essencial, ainda que nas obras posteriores se materialize de forma mais abstracta, conclusão que retiramos das suas próprias palavras. Micas é o porto seguro, a origem e o fim de si mesmo, pois o autor viaja muitas vezes sem sair do lugar ou a ele retornando como condição da sua própria existência e sobrevivência. Destarte, o exercício de apreensão  da alma do escritor implica “viajar” com ele, desde sempre, através das suas palavras, perceber as suas motivações, o seu crescimento, porque a essência, que não precede a sua existência, está lá no lugar mais recôndito e longínquo.

Compreender um escritor implica tomá-lo na sua plenitude, contextualiza-lo nos seus diferentes lugares e tempos. Foi isto que se procurou de alguma forma verter neste texto. Caberá a ele próprio, autor, e aos leitores avaliar se foi alcançado o propósito.

O leitor espera agora do autor outras viagens porque a isso o levou, criando uma grande expectativa que, diria, bem fundada. Espera-se que a sua vontade e o seu empenho, demonstrados noutras paragens, o levem a soltar-se através da escrita, contando “estórias” de tudo e de nada, com alma e sabedoria, num estilo que lhe é próprio e que o leitor, que já teve o privilégio de o ler, não mais esquecerá, desejando sempre poder mergulhar e envolver-se nas suas palavras. Assim o esperamos!
  
Referências Bibliográficas

BRANQUINHO, Mário Jorge, Sentido Figurado, 1996
BRANQUINHO, Mário Jorge, O Mundo dos Apartes, 2002
BRANQUINHO, Mário Jorge, Estranhos Dias à Janela, Sinapis Editores, 2015
SARTRE, Jean-Paul, As Palavras, Livros Unibolso, 1964
CARMINO, Fernando (trad.), a mais incerta das certezas – itinerário poético de fernando pessoa-pierre hourcade, Tinta da China, 2016

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Plano e Orçamento do município de Seia para 2017


O meu discurso na Assembleia Municipal de Seia, realizada neste dia 23 de dezembro, a propósito do Plano e Orçamento do município de Seia para 2017:


"Como acontece todos os anos por esta altura, somos aqui chamados para discutir e votar o Plano de atividades e orçamento da Câmara Municipal de Seia para o próximo ano.

Este é sempre um momento oportuno para nos pronunciarmos sobre as principais linhas a seguir durante o ano.

E o que vemos é um orçamento realista de quase 20 milhões de euros, considerados suficientes para fazer face aos desafios que aí vêm num ano que vai marcar o arranque de obras com financiamento comunitário, do chamado 2020, que já vem atrasado em 2 anos.

Naturalmente que as grandes fatias vão para os serviços de águas, saneamento e resíduos, cujos montantes representam cerca de 27% do valor global; para as operações de dívida autárquica, que representam 26 e meio por cento; Industria, comércio e energia (9,19%) e ação social (7,84%).

Na análise aos documentos, verificamos as outras áreas com dotações significativas, numa lógica que nos parece de ter de se fazer muito com os poucos recursos disponíveis. Numa lógica atenta a algum pequeno desafogo financeiro, já que o município tem sido cumpridor, no abatimento de divida, lucrando aos poucos nalguns acrescentos orçamentais e poupanças. Da segunda renegociação da dívida com os bancos, por exemplo, resultam igualmente alguns ganhos para o município.

Por isso, as execuções orçamentais apontam para um aumento gradual do investimento público municipal, sobretudo através do lançamento de programas e ações direcionadas para as famílias, o incentivo à fixação da população, à captação de investimento e criação de emprego, com diminuição continuada e sustentada da dívida, como já referi.

Uma nota também de destaque para o Orçamento Participativo que pela primeira vez consta do Plano e Orçamento e que permite aos cidadãos dão sugestões de projetos, ideias e ações no quadro do desenvolvimento local.

Evidentemente que estamos aqui para analisar as propostas para 2017, mas temos de espreitar os anos seguintes, já que se iniciam agora planos para vários anos, como é o caso do PEDU, que é o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano, que se prolongará nos próximos anos e que trata investimentos de mais de 10 milhões de euros, dos quais 4 milhões 250 mil na primeira fase, até 2018. Um plano que será uma oportunidade única de mudar a cidade para melhor, uma cidade que é para onde tudo drena, um centro aglutinador que tem de ter todas as condições para se viver com qualidade.

Por isso, este é um tempo novo que vivemos, com nodos e diferentes desafios e que exigem cada vez mais criatividade e espírito empreendedor e diria, revolucionário. Para mudar, para fazer o que falta.

Naturalmente que vivemos um tempo novo no quadro da gestão autárquica, onde se servem novas formas de governação, assente numa visão cada vez mais alargada aos outros municípios. Numa lógica de comunidade, para ganhos de escala e de eficiência, como são as várias iniciativas decorrentes da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, que vão desde o combate ao insucesso escolar, à rede de mobilidade e transportes, ao Ordenamento do território, aos equipamentos culturais e desportivos, à programação em rede, à promoção turística de todo o território. O próprio Plano de eficiência energética, referente à iluminação pública na Comunidade dos 15 concelhos assim como no investimento para intervenção em caso de catástrofes, unidades móveis de saúde, entre outros.

Ou seja, para além dos planos e orçamentos dos municípios, numa lógica centrada em cada concelho, há o plano e orçamento da CIM das Beiras e Serra da Estrela, numa lógica integrada dos 15 concelhos.

É esta nova visão que importa sublinhar, quando falamos de desenvolvimento local, onde os vários municípios estão condenados a dialogar entre si, para fazer mais e melhor, com menos recursos para as suas comunidades, mas com mais determinação e espirito alargado.

Outra realidade tem a ver com o Programa Nacional para a Coesão Territorial, um trabalho notável que resultou da ação da Unidade de Missão para o Desenvolvimento do Interior do país, lançada pelo governo e chefiada pela professora Helena Freitas.

Ou seja, há novas frentes que se abrem e que dão confiança às Câmaras do Interior do país, para abrir novas frentes de desenvolvimento.

Tudo isto porque é preciso incentivar as dinâmicas de especialização inteligente de âmbito local e sub-regional e que deverão ser apoiadas no conhecimento e na inovação produzida pelas instituições de ensino superior e na massa crítica que agregam e que disponibilizam para alimentar estratégias inovadoras e sustentáveis de desenvolvimento local e regional.

Seia tem de saber tirar partido disto mesmo, das novas medidas de valorização do interior, da necessária dinâmica a empreender e dos novos caminhos a seguir. Depois de um governo que apertou em demasia as autarquias, e quase as asfixiou, renasce a esperança e por isso é nosso desejo que a partir deste ano, em que se assinalam os 40 anos de Poder local, se abram novos rumos e novas frentes de desenvolvimento.

Mas que ninguém se iluda, este é um momento que exige de todos nós, Câmara, juntas, assembleias, empresas, coletividades, escolas, demais entidades e pessoas em geral, capacidade de dinamismo e criatividade, numa altura em que se ultrapassou a febre do betão, para dar lugar ao imaterial, à inteligência, à criatividade. Ou seja, a partir de agora é mesmo - mais miolo e menos tijolo.

O que se propões agora é uma nova abordagem de base local, mais colaborativa e mais próxima, que promova uma participação ativa e um envolvimento empenhado de autarquias locais, comunidades intermunicipais, associações, empresas e pessoas, na construção de um interior mais coeso, mais competitivo e mais sustentável.

Seia tem tudo para dar certo, arrumou as contas, consolidou obras, eventos e rumos, tem agora de dar azo a novas frentes, a novas ideias, projetos e ações, numa lógica de envolvência das populações. E além do mais, há confiança e esperança, condições essenciais para o desenvolvimento.


Seia é uma marca forte, com capacidade de atração de investimento e esse é o caminho, sem que ninguém deixe de fazer o que lhe compete. Todos temos uma missão a cumprir, sobretudo quem está na causa pública."

#seia 

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Nas asas de um sonho, Conto de Paulo Marques


O meu texto de apresentação do livro Nas asas de um sonho, de Paulo Marques:

 Na apresentação do livro, no Auditório da Casa da Cultura de Seia, com Susana Amaral, o autor Paulo Marques e Susana Freitas

Fez há pouco um ano, em setembro, que Paulo Marques apresentou o seu primeiro livro, O Sentimento de Viver a Emoção de Sentir. Uma obra em torno dos sentimentos e das emoções, numa perspetiva de potenciar o que há de bom em cada um de nós, num registo quase missionário de como ser feliz, explorando a natureza dos impulsos e das correntes primárias que brotam das pessoas, na sua singularidade.

Passado pouco mais de um ano, Paulo Marques, para quem escrever é uma paixão, presenteia-nos, à entrada da época natalícia, com um conto que nos leva para um mundo de magia e de fantasia, voando nas asas do sonho, explorando sentimentos e definições aprimoradas, indubitavelmente tão necessários.

Um livro singular, na linha de tantos contos contados, ancorado aqui no propósito de levar o leitor a sonhar, a imaginar e a refletir a partir do encontro de uma criança com a figura simbólica de embalar: o Dragão, esse doce gigante de histórias de encantar. Um pequeno conto, de tamanho grande, que vai ao fundo da leveza dos termos que animam, acompanham e impelem ao amor e a outros sentimentos de reputada significância.

Para mudar o mundo, costuma dizer-se, é preciso sonhar acordado, e aqui a inspiração vai nesse sentido, voando em pensamento, nas asas do vento, descodificando o que há para descodificar. Nesta viagem curta e ternurenta há uma forma de despertar sentimentos básicos, em diálogo corrido e breve. Uma conversa onde o autor coloca na voz de uma criança conceitos simples para os adultos lerem e melhor compreenderem.

Escrita simples, simbólica, fortemente moralista, respaldada em definições fáceis e descortináveis, mas fortes e fartas na imprescindibilidade dos termos, com foco maior no amor. A ponto de expressar que “o amor é o remédio para as doenças, só ele cura verdadeiramente” (p. 20). Ou a ponto de acrescentar que “as pessoas que mais magoam, são as que mais precisam de ajuda”, não deixando de aludir ao facto de “não termos o direito de julgar, cada um de nós dá o melhor de si” (p. 26). Do mesmo modo, quando a menina Matilde diz ao Dragão que a “maior prova de amor que alguém te pode dar, é regressar a ti, depois de ter ido embora”. Ou ainda quando diz que “é bom quando as coisas acabam, pois dá oportunidade para que outras novas aconteçam”. A mesma Matilde que, mais adiante, refere, na simplicidade de um olhar imaginário, que “a tristeza e as lágrimas servem também para libertar o que sentimos, (…)”, (p.31). 

Um conto para crianças que os adultos devem ler e interiorizar, como se percebe nas entrelinhas ser a intenção do autor, ou não se autodefinisse Paulo Marques como um facilitador. Por isso, e na linha do que o autor já nos vem habituando, esta é uma escrita de assuntos sérios, que ditada assim, redunda em compreensão alargada e facilitada. E alastrada em sentidos, reinscrevendo-se em lições e auto-retratos, que nos conferem responsabilidades morais acrescidas, levando-nos nas asas dos sonhos ao encontro do que somos, em direção ao bem, em contraponto ao mal. Porque há sempre lados opostos e “(…) há sempre hipótese de um desses lados ajudar o outro, ou seja, mostrar o amor”, como se lê na página 19.

O medo, sentimento negativo, muitas vezes infundado, é também aqui desconstruído na pessoa da pequena Matilde. A presença de um ser diferente, grande no tamanho, não lhe inspirou qualquer sentimento negativo pois, como ela diz “eu gosto de cada pessoa porque não há ninguém igual”. A frase e as que a antecedem alertam, na sua simplicidade, para o respeito do que é diferente e o facto de se ser diferente não é merecedor de medo. A amizade que une dois seres é possível na diferença entre os mesmos. E é o amor, entendido em sentido lato, que pode salvar o mundo, unir os opostos, ultrapassar a dor. A morte é aqui relativizada como algo que faz parte da vida e compreendê-la é também um sinal de amor pela libertação necessária. Nesta visão, assente na existência de tamanho sentimento, nada se torna impossível. Basta desejar, ter vontade de e acreditar. E amar é também libertar.
Assim, o autor vai decifrando sensações, rebuscando definições até deixar em nós um leve trago de curiosidade e um reflexo impulsivo de ir também através do vento, para fazer de nós mais felizes, entrecortando o real e o imaginário.

Há nesta escrita de Paulo Marques um questionar por dentro, numa história simples, de amor e de vida, despertando curiosidades, por entre frases e contextos narrativos, numa adesão a verbos e princípios, num quase universo de paz e de serenidade.

Quase como no Principezinho, de Saint-Exupéry, deambulando no profundo, simples mas complexo emaranhado de sentimentos, vemo-nos a interpretar códigos e a refletir assuntos de vida, neste caso com o amor à cabeça e bem no centro desse universo restrito e denso. História escorreita, respaldada na teia simbólica de códigos, aqui e ali desfeitos em apelos e desembaraços, reencontrando bastas vezes a chave do caminho certo. Mesmo quando a Matilde se despede do Dragão, rematando docemente que “Não é por ir embora que deixo de te amar” (p. 35).

Por aqui se vê que esta é mais do que uma história infanto-juvenil de “era uma vez”, uma vez que, através dela, podemos ler e sonhar e imaginar um encontro entre dois seres diferentes, que em pouco tempo criam laços e amor entre ambos. Uma história entre o real e o imaginário, para quase concluir que “só importa aquilo que somos e sentimos”.

Em jeito de síntese, este é um pequeno momento para sonhar, para viajar pelo mundo das emoções e dos mais nobres sentimentos, como que para celebrar o amor pela vida. Como que para espalhar a consciência dessa vida e desse amor alado, para quem acredita. Como quem acredita na sensibilidade e nos valores. Valter Hugo Mãe, no seu último livro Contos de cães e maus lobos, diz a dada altura que “as crianças entendem o que nós já deixámos de entender”, o que neste conto de Paulo Marques se aplica na perfeição, numa escrita onde se expressa a vontade de voltar a entender, o que redunda na forma de manter a capacidade de amar.

Enfim, introitos e motivos para nos prender à leitura, na emoção dos sentidos. E assim vamos, andando e lendo, nas asas de um sonho, como num conto de fadas!

Uma história curta, emotiva e sentida, enriquecida com as ilustrações de Ana Romão, que são um contributo valioso para tornar a obra ainda mais apelativa e enriquecedora. Ilustrações que nos facilitam ainda mais a entrar nesse universo criado por Paulo Marques, na mistura daquilo que pensamos, com aquilo que lemos e vemos ilustrado.

Ana Romão é ilustradora freelancer e vive na área de Lisboa, Portugal.
Possui Licenciatura em Artes Plásticas pela FBA Universidade do Porto, Mestrado em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias pela FCSH Universidade Nova de Lisboa e Mestrado em Educação Artística.

A publicação é da Sana Editora, um projeto literário para a edição de livros e outras publicações para públicos diversos e diferentes géneros literários.


Mário Jorge Branquinho

Seia, 18 de dezembro 2016

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Mário Branquinho _ A surpresa dos amigos


Guardo aqui o filme do Eduardo Galguinho e voz de Ricardo Alvo, para memória futura, a propósito da surpresa que os amigos da Associação de Arte e Imagem de Seia me fizeram na última edição do festival ARTIS 2016, a 7 de Maio.

sábado, 1 de outubro de 2016

Vila Cova (Seia): Uma história multissecular de António da Silva Brito



Antes de mais, quero dizer que é uma honra para mim ter sido convidado pela família do Prof. António da Silva Brito para apresentar o livro escrito pelo mesmo. Uma honra e um enorme desafio, esperando poder estar à altura da qualidade da obra apresentada, do prestígio de quem a escreveu e do convite formulado.
Foi em meados dos anos oitenta que eu me cruzei com Silva Brito, era eu um jovem agente e animador cultural a dar os primeiros passos, sobretudo no associativismo juvenil. Foi, de resto, o movimento associativo que nos juntou num projeto comum: a criação da Inter-associações do concelho de Seia, eu na qualidade de Presidente da Associação Recreativa e Cultural do Sabugueiro e Silva Brito enquanto Presidente do Centro Juvenil de Vila Cova. Uma estrutura que agrupava perto de 100 coletividades do concelho e que procurava elaborar projetos comuns, numa perspetiva de desenvolvimento cultural inclusivo e abrangente. Uma estrutura que coordenou actividades, lançou projetos e ideias novas, estimulou o associativismo e criou campo fértil para a melhoria no desempenho dos vários dirigentes associativos do concelho de Seia.
Mais tarde, encontrámo-nos noutros projetos, incluindo os jornalísticos, quando Silva Brito foi diretor do jornal Porta da Estrela e eu um modesto colaborador.
Entretanto, em 1996, convido-o para escrever o prefácio do meu primeiro livro, Sentido Figurado, o que muito me honrou, um livro cuja capa foi concebida por Sérgio Reis. Uma honra redobrada anos mais tarde quando, em março de 2015, Silva Brito aceita fazer a apresentação do meu terceiro livro, Estranhos Dias à Janela. E quanto empenho Silva Brito colocou na análise desta obra!
E assim nos fomos cruzando e partilhando ideias, na doce descrição de um intelectual que este ano o concelho de Seia perdeu.
Agora cheguei aqui e espero estar à altura de lhe retribuir expressando algumas palavras acerca uma obra riquíssima, cuja leitura se recomenda e, quem sabe, um dia servir de mote para espetáculos de teatro comunitário ou para reflexão sobre vários aspetos de desenvolvimento local.
Um livro que dignifica quem o escreveu, ainda que publicado após o seu desaparecimento do mundo dos vivos, que o autor dedicou à sua família “para que a ligação às raízes nunca se extinga”.

Um livro que nos apaixona na leitura, prendendo-nos às histórias contadas, numa longa viagem de séculos, devidamente enquadradas nos contextos históricos e respaldadas no empenho, engenho e arte do escritor, aqui feito historiador.
Uma monografia de Vila Cova de Seia cujo exemplo pode muito bem ser seguido por outras personalidades, para enriquecimento do património cultural do nosso concelho. Neste sentido, este livro expressa o seu contributo.
Na leitura desta obra dei por mim a decifrar os códigos descritos por Silva Brito e a viajar na história. Partimos assim numa expedição onde Silva Brito nos descreve vivências com muitos séculos, ou melhor, uma sucessão de histórias multisseculares sobre Vila Cova de Seia.
Silva Brito convoca-nos para essa tal viagem de memórias que começa nos primórdios da nacionalidade até aos nossos dias. Viagem com marcas nos campos, nas casas, nos monumentos, nas praças, nas ruas, onde ainda hoje nos reencontramos com a história do lugar. “Histórias de vida, esforço e ambição, de milhares de pessoas anónimas, de todas as condições, que deixaram, cada um a seu modo, uma pedrinha, mais ou menos decisiva na construção da nossa casa comum”, como se pode ler na lombada do livro.
Silva Brito começa por ir às raízes, aos primórdios de Vila Cova, por trilhos e anotados caminhos, buscando, nos arquivos e nas obras publicadas, em aturado estudo e paciente dedicação, respostas a perguntas para trazer à luz deste século XXI um estudo importante sobre esta localidade situada nas margens do rio Alva.
Uma monografia cientificamente irrepreensível, uma obra que dignifica um povo, enfim, um aturado trabalho histórico para os vindouros, a partir deste presente emergente.
Contudo, o escritor, aqui na pele de historiador, interroga-se várias vezes na decifração de fenómenos, começando precisamente nos vestígios que apontam para a ocupação do local na época romana, no sítio das Cabeças. Quem sabe assim se esta obra poderá incentivar novos estudos sobre a ocupação romana do nosso território, como aliás sugere o autor: “quando se fala de ponte romana de Vila Cova, esta convição precisa de ser suportada em estudos adequados. O que sabemos - acrescenta - é que é pelo menos medieval, dos séculos XII e XIII. E como sustenta o mesmo “devia ser classificada de imóvel de interesse público e vedada a trânsito pesado”.
Como refere o autor, Vila Cova constituiu-se como um agregado populacional de pequena dimensão, por volta dos séculos X e XI. Vila Cova era um núcleo de agricultores que aqui se estabeleceu, que ganhou estrutura e identidade próprias com o passar dos tempos. Era uma villa como tantas outras, com gente que labutava nos campos. Há um ano de referência,1138, numa carta do príncipe Afonso, onde é feita a primeira alusão ao topónimo Vila Cova, o que não quer dizer que não tenha sido habitada antes.
A palavra villa vem do Latim quinta, terreno de exploração. Daí, ainda hoje, os lugares “cimo da vila” e “fundo da vila”. E a palavra Cova com o sentido de concavidade ou depressão tem a sua razão de ser na orografia do local.
No século XVI, surge uma referência a Vila Cova à Coelheira, tendo-se registado a partir daí alguma confusão com um nome idêntico ou igual relativo a outra Vila Cova à Coelheira. Por isso, Silva Brito recomenda na sua obra aos órgãos autárquicos que se ocupem desta questão toponímica. Há mesmo um documento importante, que remonta às Inquirições Gerais de 1258, que comprovam a toponímia de Vila Cova.
E nessa viagem rápida que vos trago em jeito de síntese, através da leitura apaixonada do livro de Silva Brito, apresso-me a dizer que, de 1496 a 1527, a população aqui cresceu 91%! Em 1585, terá passado para o domínio dos Marqueses de Gouveia.
Trazendo algumas novidades do livro à luz destes dias, em termos de património religioso, sublinho o facto do templo de Vila Cova ter sido edificado no século XIII. A Igreja encontraria local definitivo onde é hoje o cemitério, aí se mantendo até alvores do século XX. E claro, o orago, é, desde sempre, São Mamede. Da igreja primitiva sobrou a atual capela do cemitério, a que corresponderá uma parte do primitivo templo.
Já a capela do Santíssimo Sacramento remonta ao século XVI.
Ainda outro templo da Freguesia, que atesta a profunda religiosidade da população, foi, durante séculos, a capela de São Pedro, existente no local onde desde o início do século XX está implantada a atual igreja.
Da instituição paroquial de Vila Cova pouco se sabe até ao século XVII. Foi um longo percurso até passar a ser paróquia de facto e a ter o seu próprio cura, que era indicado pelo vigário de Santa Maria de Seia. Desde os alvores da nacionalidade até 1882, Vila Cova pertenceu à Diocese de Coimbra, passando, neste ano, para a Diocese da Guarda. Desde os alvores do século XIII pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz.
No lugar da Praça existiu um Pelourinho, onde teriam também existido a Cadeia do concelho e a Câmara, até finais do século XIX, princípio do século XX. Hoje, há uma peça que comprova tal existência à entrada da sala da Junta de Freguesia. Em 1974, a Junta mandou construir um Pelourinho, mas este tem pouco a ver com o antigo.
Entretanto, refere Silva Brito, a antiga casa da Câmara e a Cadeia foram adquiridas pela D. Ana Clementina. Esta alienação e posterior reconstrução fizeram perder mais um símbolo da velha autonomia da vila.
Da leitura da obra, uma outra referência se impõe e que tem a ver com as visitas pastorais, nos séculos XVII, XVIII e XIX (1612 – 1830), porque “assim os bispos vigiavam o estado de conservação das igrejas e controlavam o seu património.
Continuando a viagem histórica multissecular de Silva Brito, Vila Cova foi reconhecida como estrutura municipal enquanto freguesia e concelho rural autónomos desde o século XIII, até precisamente ao ano de 1836, altura em que passou a pertencer ao concelho de Sandomil, até 1855. Dezanove anos, portanto, passando posteriormente a integrar o Concelho de Seia. Ou seja, terá sido concelho desde o século XIII até à primeira metade do século XIX. E assim, ao longo dos tempos, Vila Cova contou com um ou dois Juízes, Vereadores e um Procurador, além de outros magistrados.
Deliciosa é também a descrição de como eram eleitos os vereadores, mas isso, deixo para lerem a partir da página 209!
Nas mudanças administrativas, cabe o destaque para a Junta da Paróquia de Vila Cova, antepassadas das Juntas de Freguesia, criadas em 1830, com um Regedor, um Secretário e um Tesoureiro, para gerir os bens da Paróquia. Posteriormente, passou a ser composta por um Presidente, que era o pároco, um Secretário e dois membros eleitos, já que, com o fim da Câmara, esta responsabilidade passou para este órgão.
Nas delícias bem contadas, aprimoradas e contextualizadas nas épocas por que o nosso país passava, ficamos também a saber como foi construída, em 1815, a Levada Pública, assim como nos retemos nas recambolescas histórias do conflito com a Empresa HidroEletrica da Serra da Estrela, por causa da utilização das águas do rio Alva. Estávamos em 1934, ano em que se negoceiam as contrapartidas e é salvaguardada a questão do caudal para a rega das propriedades. Decorrem negociações com advogados, engenheiros, a empresa, o povo e a Junta de Freguesia. E até o Governador Civil da Guarda, Borges Pires, se dispõe a mediar o conflito, mas sem efeito. Chega a ir de Vila Cova uma delegação ao Ministério das Obras Públicas a Lisboa. Avançam as obras, continua a controvérsia e há, inclusivamente, registo de uma carta enviada a Salazar dando conta do desagrado. Em 1938, continuam as obras e continua a faltar a água nos campos. Surgem, entretanto, levantamentos populares e expressões como “Bota a baixo que a água é nossa”.
A luta valeu a pena e a Levada Pública sobreviveu.
A Central de Vila Cova tinha sido inaugurada em Janeiro de 1937 e a inauguração da Luz nesta terra ocorreu em 17 de janeiro de 1938, ou seja, um ano depois da entrada em funcionamento da Central.
No livro de Silva Brito também se refere a atividade mineira, das areias do rio Alva que teriam ouro e da extração de Volfrâmio e de Estanho, por alturas da Segunda Guerra Mundial. Era tempo de guerra, havia muita pobreza e privação. A mina do Volfrâmio localizava-se no sítio dos Vales.
Entretanto, um à parte, para dizer que em 1951 foi inaugurada a Casa do Povo, onde funcionavam vários serviços e, na parede exterior da mesma, chegaram a ser exibidos filmes ao ar livre!
E assim, nesta viagem que vos trago muito resumidamente, chegamos ao quadro dos lanificios, uma atividade artesanal que cedo evoluiu para uma produção industrial e que marcou uma época na história de Vila Cova. No século XIX e início do século XX, havia em Vila Cova tecedeiras e tecelões que disso faziam atividade habitual. No início do século XX, instalou-se uma unidade industrial têxtil, pertencente a Joaquim Silva Abranches. Por essa altura, M. Amaral Marques fundou a Fábrica do rio Alva. Em 1937, esta unidade empregava 40 pessoas. Nas primeiras décadas do século XX, forma-se a Martinho Fael e Moura, Lda. que viria a dar sustento a quase 200 pessoas. Em 1981, sucedeu na empresa Célio Martinho. Modernizou-a, passando a designar-se Lanificios Martinho. Em 2004, o neto, Amândio Martinho, tomou o difícil encargo da sua gestão até à sua liquidação.
E assim vamos chegando aos nossos dias, passando por referências à existência de Tele-escola, desde 1969 até 1973, por iniciativa do Padre Jaime Carvalheira; às vias de comunicação; ao edifício das Repartições Públicas de Vila Cova; às redes de água, saneamento e ETAR; aos equipamentos desportivos e de lazer.
Igualmente referências incontornáveis ao associativismo em Vila Cova, registando-se na segunda metade do século XX, nos princípios da década de cinquenta, a criação do Rancho Folclórico “Estrela D’Alva”.
E claro, o Centro Paroquial de Cultura Juvenil, criado em Setembro de 1967, de que Silva Brito foi principal impulsionador.
A matriz essencial da ação do autor era fazer e divulgar a cultura, em todas as suas vertentes, da popular à erudita. Começou com uma Biblioteca, a publicação do Boletim “Rumo ao Alto”, a criação de um Rancho Juvenil e de um Grupo de Teatro, este considerado o mais duradouro e mais sério dos projetos culturais do Centro. O Grupo teve um longo e rico historial, tendo inclusivamente representado o Distrito da Guarda, em Lisboa, na XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, em maio de 1983, além de levar o teatro a muitas aldeias e cidades do centro de Portugal.
Realizava sessões de cinema com regularidade, recorrendo a exibidores ambulentes e à Fundação Caloustre Gulbenkian.
A dinâmica Cultural do Centro, de que Silva Brito era a verdadeira mola real, levou igualmente à criação do Grupo de Cantares “Águas Novas” que depressa ganhou notoriedade, sendo requisitado para muitas digressões pelo país, chegando a atravessar a fronteira, em 1988, para atuar em Contrexeville, no contexto do ato de geminação desta cidade francesa com Seia e com o Luso.
Ao longo de um quarto de século de atividade, o Centro Cultural de Vila Cova levou a cabo inúmeras atividades culturais, recreativas e desportivas – colóquios, exposições, passeios, festivais de música tradicional e coral, concursos literários, classes de dança, jazz, entre outras. Uma das mais originais e surpreendentes foi a existência de uma estação de rádio, com o nome de “Rádio Horizonte”, que funcionou entre abril de 1987 e janeiro de 1989.
No campo associativo, regista-se também a Associação Operária de Vila Cova, fundada em Outubro de 1974, mais vocacionada para a área do desporto.
Outros factos e marcos descritos na obra poderiam ser sublinhados, sem haver a pretensão de qualquer secundarização dos mesmos, mas trata-se de uma impossibilidade dada a dimensão da obra e o objetivo desta apresentação no sentido de evidenciar as inegáveis qualidades do autor, quer enquanto escritor quer como homem da terra que o mesmo procurou preservar através de um importante testemunho público. (podes terminar o texto com uma frase dentro deste género para não quebrar logo o texto ou as descrições feitas, parece-me mas vê o que achas melhor)
E assim se completa a viagem, interrompida na fase de apresentação pública e que hoje aqui cumprimos, nesta cerimónia simples e singela, tão simples e tão ao jeito da personalidade de Silva Brito.


Mário Jorge Branquinho
Vila Cova, 1 de outubro de 2016


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CineEco 2016, com filmes que podem mudar o mundo



De 8 a 15 de outubro, Seia volta a ser a capital do cinema ambiental em Portugal, com a realização da 22ª edição do CineEco 2016. Durante oito dias, a Casa da Cultura acolhe sessões, de manhã à noite, em várias competições e sessões especiais. São quase 100 filmes de 20 países para olhar o mundo e procurar mudar hábitos em prol de um futuro sustentável.


O cinema e as questões ambientais dão, mais uma vez, o mote para o encontro em Seia do público com realizadores e diretores de festivais de todo o mundo e outros agentes culturais, proporcionando momentos de partilha e sã convivência.

O tema central da edição deste ano, relativamente à programação, tem a ver com a questão dos perigos da energia nuclear, que estará em foco em diversas sessões e debates. O acidente de Chernobyl faz agora 30 anos e por isso estará em foco no festival. Uma atenção também centrada na Central de Almaraz, que levanta questões de segurança as quais devem ser tidas em conta pelas autoridades portuguesas no que concerne aos riscos de rutura desta central.

No festival será igualmente assinalada a passagem dos 40 anos após a criação do Parque Natural da Serra da Estrela, através de um workshop e de uma conferência, com a participação de figuras de referência no âmbito da temática do potencial paisagístico a preservar.

No rol de atividades paralelas, cabem ainda, um concerto de olhos vendados, com Luís Antero, para ouvir os sons da natureza; uma exposição de pintura e escultura, caminhadas à serra, provas de vinhos e debates pontuais.

As escolas vão marcar presença no festival, assistindo a sessões direcionadas, mas o CineEco também vai às escolas. Desta feita será exibido um filme infantil nos centros escolares e será realizado um workshop sobre cinema e ambiente, com convidados.

O Festival de Cinema Ambiental de Buenos Aires - FINCA será o convidado do CineEco, na linha das boas relações estabelecidas entre o festival de Seia e os restantes 35 festivais que compõem o Green Film Network.

São várias as propostas oferecidas e fáceis os caminhos para Seia, ao encontro desta festa do cinema, onde todos serão bem recebidos e onde a natureza combina com os afetos.

Mário Jorge Branquinho
Diretor
www.cineeco.pt 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Comunidade Intermunicipal promove debate sobre os acessos ao maciço central da Serra da Estrela


Agora fala-se de planos de prevenção de fogos florestais e de como combater o flagelo em tempo de “guerra”, com os fogos aí na ordem do dia, neste Verão quente de 2016.
Entretanto, aproximamo-nos de mais um Inverno e tão depressa teremos o assunto dos acessos ao maciço central outra vez na comunicação social, onde se fala do corte de estradas na sequência da queda de neve. Uma situação com mais de trinta anos e que ano após ano é recorrente.
Por isso, a Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, a que presido, vai realizar um debate no próximo dia 9 de Setembro, no Auditório da Torre, de acordo com a seguinte nota de imprensa:




“Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela promove debate na Torre sobre os acessos ao maciço central

No âmbito das suas atribuições, a Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIM-BSE) em colaboração com o Conselho da respetiva CIM, vai organizar no próximo dia 9 de setembro, pelas 10 horas no Auditório da Torre, um debate sobre os acessos ao maciço central da serra da Estrela. 
O Ministro das Infraestruturas de Portugal, Pedro Marques foi convidado para participar neste debate para o qual estão também convidados os Presidentes de Câmara e deputados da CIM das Beiras e Serra da Estrela, deputados eleitos pelos distritos de Guarda e Castelo Branco, Presidentes de Juntas de Freguesia, Turistrela, Turismo do Centro, empresários, forças policiais e de Proteção Civil, entre outros. 


No entender da Assembleia, esta será uma jornada de elevada importância e uma oportunidade para juntar vários intervenientes e procurar respostas para um problema que prevalece há várias décadas e com consequências para a imagem e economia da região. 
Com as alterações climáticas, tem diminuído de forma acentuada a queda de neve na serra da Estrela, mas mesmo assim, sempre que cai neve, são cortados os acessos ao maciço central, impedindo o acesso das pessoas àquele ponto. 
O que fazer então para promover a mobilidade na única estância de esqui em Portugal? 
Este é o desafio do debate que a Assembleia da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela vai realizar na Torre, a quase dois mil metros de altitude.”




quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Real e o Fantástico de Luís Rente em Trancoso nos anos 60



“Entre o Real e o Fantástico – Memórias de Trancoso nos anos 60”, é o título da mais recente publicação de Luís Vieira Rente, onde relata episódios da sua infância e adolescência que viveu na terra de Bandarra.



Numa escrita leve e descontraída, às vezes com travo de sátira e humor subliminar, Rente inscreve recortes de prosa apurada e simultâneamente travos de storytelling, por entre uma narrativa corrida de histórias de sua vida enquanto jovem. Histórias de vida banais, em Trancoso, como em tantos lugares recônditos, de um país soterrado em expedientes de vida difícil, onde perpassam alegrias e feitos de quem se contenta com pouco.
Uma escrita escorreita, onde num quadro real se contemplam descrições de vizinhanças, andanças e locais míticos, colocando ênfase nos primeiros estudos e episódios de juventude de Rente, para quem a origem do apelido contínua envolta em mistério.
Nesta escrita, entre episódios reais e outros tantos disfarçados de fantásticos, espreita a hilariante descrição de episódios de vida simples, onde pontuam pessoas e lugares que marcaram a época. Quem é de Trancoso e tem mais de quarenta, revê isso mesmo, lugares e pessoas. Quem não é, como eu, entra num universo de histórias encantadoras. Simples episódios, como as que rodam à volta da Pacheca, o autocarro da Companhia Manuel Pacheco, que diariamente fazia o percurso Lamego – Guarda e retorno, onde iam e vinham encomendas, sobre o olhar atento do cobrador, ”um homem honestíssimo, o senhor Araújo de seu nome”.
Ingredientes bastos, entrecruzando entre os tempos livres, o desporto e o clube da terra, as peripécias e os jogos, os homens que passaram e fizeram história, ou as mulheres simples e influentes na vida da vila, como a cabeleireira, a modista ou a professora. O café, lugar de encontro e afetos, o Senhor da Pedra, altar de celebrações da Primavera e deambulações diversas.
Na segunda parte do livro, entra o fantástico onde resultam “personagens de recriação romanesca, vagamente inspiradas em figuras reais”, como o autor alerta, redundando em “coincidências fortuitas” com a realidade.
Por onde se deambula pelo Louva-a-deus, descrevendo-se o “Turinho” barbeiro; o “bom vivant” do Sargento; a Chefe dos Correios “senhora esmoler”, de grande dedicação e amor à arte; o Ângelo da Fonseca, outra figura típica e conhecida por feitos e desventuras, ou o Manel Sampedro, que tivera uma vida faustosa, entretanto dissipada. As descrições em torno do Zézinho Pombal, funcionário público, que se reformou da máquina de escrever e do ofício com o surgimento dos computadores; o Bitobá, considerado “um tipo porreiro”, sem horário para “despegar” do trabalho ou o Artur que sonhava ter uma Florett, um brinco de moto que acabou por ter, e perder mais tarde, com a própria vida, debaixo de um camião.
Assim se lê e se percebem episódios da vida de Rente na infância e juventude, como quem lê histórias simples de uma vila, numa escrita escorreita, leve e fresca, por entre o real e o fantástico descritos e separados.
Resta acrescentar que Luís Vieira Rente, embora nascido no Brasil (1956), viveu a sua infância e adolescência em Trancoso. Vive em Seia desde 1982, onde é professor do quadro de um dos agrupamentos de escolas da cidade. Licenciou-se em História (1979) e concluiu Mestrado Interdisciplinar em Estudos Portugueses (2003) com dissertação editada pela Câmara Municipal de Seia “O Marcelismo e o 25 de Abril vistos em dois jornais locais – Subsídios para a história recente de Seia (1968- 1975)”.

Mário Jorge Branquinho
Jornal Terras da Beira, 4 de Agosto de 2016