segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Dentro do Lar, com Covid, no surto, sem susto

"De volta a casa, depois de testagem negativa, após 12 dias em quarentena, com resultado positivo.


Fiquei estes dias todos, literalmente dentro de um Lar de idosos, na sequência de um surto que atingiu 49 pessoas, entre idosos, funcionários e eu próprio.
Podia não o ter feito, mas enquanto presidente da direção, optei por fazer a quarentena lá dentro, viver para contar, e simultaneamente, colaborando e incentivando mulheres extraordinárias que se aguentam numa frente de combate muito desgastante e complexa.
Tenho repartido a minha vida entre a cultura, a ação social, o ambiente e o desenvolvimento territorial em geral, mas entendi viver por dentro esta experiência, para ajudar, tomar decisões e também para perceber o ambiente catastrófico e aflitivo de que tanto se fala dos surtos em Lares de Idosos. Numa altura de que tanto se fala de humanidade e desumanidade.
Estes foram dias inimagináveis, intensos e de grande aprendizagem. Da partilha de afetos, do carinho prestado e da dignidade com que se tratam os nossos seniores.
Agora a situação já está numa segunda fase descendente e com mais uns esforços e uns dias, não estará longe, o fim da tempestade.
Resta que tudo continue a correr bem, porque tudo isto é frágil, tudo tem que se lhe diga, nem tudo são rosas e a vida é feita de pequenos nadas e de muitas vontades. De gestos simples e decisões assertivas.
Estou de volta a casa, animado mas ainda não totalmente descontraído, trazendo no pensamento aqueles que ainda ficaram no campo de batalha e do trabalho que ainda têm pela frente.
O caminho ainda não terminou, mas cabe em qualquer circunstância um louvor a funcionárias, diretora Técnica, serviço administrativo, de enfermagem e médico, pelo empenho e dedicação. Sem parangonas. Com a noção de que de um momento para o outro, tudo pode acontecer. E todos podemos estar dentro de um furacão.
Como em qualquer parte do mundo, numa altura destas, ninguém está livre e só quem passa pela tormenta, percebe o que vai lá dentro.
Na ERPI do Sabugueiro, os que ainda estão positivos, quase não têm sintomas, e dentro de dias terão também boas notícias. Apesar de que, o que é hoje, pode não ser amanhã. E como temos esperança e reiteramos com frequência o espírito positivo, acreditamos que tudo vai correr bem, apesar de tudo! "

17 de novembro de 2020
MJB

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O Cinema enquanto ferramenta de promoção de valores ambientais

Jornal Público, 5 de fevereiro de 2021

 Escrevo este texto, sobre a importância do cinema na promoção dos valores ambientais, a partir da minha experiência enquanto diretor e fundador do CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela. Uma história contada na primeira pessoa, num percurso de 25 anos, que nos traz à atualidade um evento organizado pelo município de Seia, no quadro de programação cultural deste concelho do interior do país.

Se em 1995, quando, no âmbito das atividades do município de Seia, lançámos o festival, os filmes se apresentavam numa versão minimalista e com laivos de moralismo, focados sobretudo na natureza, hoje ampliou-se de forma gigantesca o olhar de temáticas relacionadas. O ângulo de abordagem nos mais de 600 filmes apresentados anualmente a concurso, oriundos de mais de 40 países, é cada vez mais alargado a temáticas diversificadas, já que hoje quase tudo tem a ver com questões ambientais.

1.

Ao longo dos anos foram sobressaindo numa primeira linha os filmes-documentário que, normalmente, retratam o mundo natural e frequentemente desastres ambientais e uma certa “sacralização apocalíptica”; numa segunda linha, filmes que assumem como tema questões ‘ambientalistas puras’, evidenciando frequentemente protagonistas ‘defensores da natureza’ (tal como o já popular Erin Brockovich) e, por fim, os de animação, inscrevendo-se representações simbólicas das visões do homem sobre a natureza.

Temáticas pertinentes, com propósitos de alterar hábitos, afirmando-se alguns festivais, não só como eventos, mas acima de tudo como movimentos capazes de gerar mudanças de comportamentos nas pessoas. Numa espécie de gestos locais para mudanças globais, onde os jovens e as crianças têm papel central. A confirmação de alguns fenómenos como as alterações climáticas, as ameaças à biodiversidade, o esgotamento de recursos, entre outros, colocaram na agenda mundial a tomada de consciência da crise ambiental de carácter global.

Em face destas ameaças cada vez mais presentes, nos atropelos aos valores ambientais e de sustentabilidade, emerge o imperativo de mudança. De um modo geral e de forma simplista, o foco coloca-se sobretudo na necessidade de redução de uso de plásticos, na redução de consumo de carnes e outros alimentos compostos, e de uma maneira geral na redução da emissão de gases com efeito de estufa provenientes de industrias, transportes, agricultura ou resíduos.

Verifica-se no entanto, a implementação recente de uma certa moda ambiental, em que muito é feito pela sustentabilidade, porque fica bem ou por que impressiona ou vende. No entanto, nem sempre é assim, como revela Werner Boote no seu filme Mentira Verde (The Green Lie), que abriu o CineEco 2018, onde se denunciam multinacionais que vendem produtos verdes, mas que no fundo não passam de estratégias de marketing para vender mais, em nome do ambiente. Daí o papel decisivo das curadorias na elaboração das programações, entrando em linha de conta com os Critérios de seleção dos filmes – qualidade artística e história que o filme conta e relevância para problemas atuais e autenticidade cientifica. Por isso, acentuamos a tendência para o critério da esperança, para que não seja apenas a “triste realidade” mas também casos de sucesso. Não só nos filmes para crianças mas também para o público em geral.

2.

Neste contexto, importa sublinhar a importância do cinema enquanto ferramenta que permite partilha de conhecimento, assim como área de fornecimento de pistas de aprendizagem capazes de abrir portas à reflexão. Que levem a questionar, a inquietar e a operar mudanças de comportamento, sobretudo quando falamos de cinema enquanto recurso educativo. E aqui, entra em linha de conta a importância de problematizar estratégias de linguagem, operadas em filmes eco-ambientais, de cariz educacional.

Filmes, enquanto objetos artisticos e ferramentas pedagógicas, capazes de demonstrar a importância das artes para mudanças de paradigmas nas sociedades contemporâneas. Neste caso concreto das questões de ambiente e sustentabilidade, podemos dizer que o cinema é uma ferramenta muito importante e que dá os seus frutos. E tanto maior é o contributo, quanto maior é o leque de intervenção. Quantas mais sessões, mais ações e inciativas se multiplicarem, seja nos auditórios, nas escolas ou outros espaços alternativos. E de preferencia com o impulso de festivais de cinema, para darem mais consistência à ação e missão.

É um facto indesmentivel que nos últimos anos tem disparado o surgimento de festivais de cinema no mundo e neste caso em particular, de cinema ambiental. Isso também se deve ao incremento muito abundante de produções cinematográficas focadas nas questões ambientais. Festivais que desafiam, inspiram e motivam as pessoas a sair e tentar fazer a diferença nos seus mundos e em particular nos universos escolares.

Naturalmente que os festivais são fenómenos das industrias culturais, mas também da emergência de novos problemas das sociedades contemporâneas a braços com ameaças e problemas de sustentabilidade que tocam de perto todos os cidadãos do planeta. Festivais de cinema de ambiente, que constituem um universo à parte. Entre 1999 e 2010, registou-se um pico de criação de festivais desta temática e hoje, no calendário de realizações, concentram-se sobretudo em nos meses de abril, maio e junho e outros nos meses de setembro, outubro, novembro.

Tematicamente restritos, mais do que plataformas de circulação de eco-cinema, constituem-se como pontos de encontro onde os cineastas e o público interagem. Ou seja, espaços e lugares onde emerge a natureza democrática da participação popular, com conversação, diálogo e estimulo à criação e participação.

Neste quadro de ação dos festivais, a Educação Ambiental cumpre um desígnio importante, um serviço público que emerge em várias plataformas e projetos, para dar contributos vários. Para formar públicos, para despertar o gosto pelo cinema e pelo ambiente, para despertar consciências e formar cidadãos. Um desafio duplo, entre a magia do cinema e a emergência de preocupações e visões de natureza ambiental.

Entendemos por isso, que além da difusão do gosto cinematográfico, o cinema ambiental tem sido um instrumento primordial na promoção da educação ambiental junto de escolas. No caso concreto do CineEco, isso é feito em Seia, no decurso do festival, mas também em mais de 40 cidades portuguesas, através da sua vasta rede de extensões, exibindo filmes e estabelecendo diálogos, em interação dinâmica e motivadora.

Dessa forma, dão-se pequenos contributos para a formação de cidadãos mais esclarecidos a nível ambiental, no sentido de poder permitir a defesa de um bem-comum. Nesta matéria, predomina o género de animação, como forma de chegar mais próximo do público-alvo, neste caso, as crianças. Género animado e atrativo, de modo a suscitar interesse e entusiasmo e assim ajudar na ampliação de públicos para o cinema ambiental.

3.

Em nosso entender, é possível um filme apresentar um problema, denunciar determinado atropelo aos valores ambientais, mas ao mesmo tempo contar uma história e por fim apontar caminhos para uma solução sustentável. Tornar o filme ambiental como objecto artístico atractivo, desmistificando a ideia de filme eco-chato.

Empoderar a juventude através da educação ambiental para a adoção de um estilo de vida saudável é um dos propósitos dos festivais, de uma maneira geral e que foi reforçado no I Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente que organizámos em Seia no CineEco 2018. E fomos bem sucedidos, ao ponto de Giulia Braga, responsável de Comunicação Externa do Banco Mundial e Connect4Climate, ter revelado disponibilidade em apoiar jovens realizadores e cineastas com base na proliferação de uma plataforma sobre o clima, no sentido de influenciar decisões políticas de uma forma positiva. Uma posição reforçada no mesmo fórum por Catherine Beltrandi, representante da UNEP – Departamento de Ambiente das Nações Unidas, para quem é importante a envolvência e mobilização das Universidades em todo o mundo.

No fundo, pretende-se que os alunos aprendam a utilizar o conhecimento para interpretar e avaliar a realidade envolvente, para formular e debater argumentos, para sustentar posições e opções, competências, consideradas fundamentais para a participação ativa na tomada de decisões fundamentadas, numa sociedade democrática, face aos efeitos das atividades humanas sobre o ambiente.

Já agora, podemos dizer que os intervenientes deste 1º Fórum de Festivais de Cinema Ambiental reconheceram ainda a importância da componente cientifica para reforço da confiança no trabalho apresentado e um elemento chave no esclarecimento das populações. Concluiu-se igualmente pela importância do desafio comum dos festivais na criação de novos públicos, uma componente determinante da missão de cada festival. Uma missão de serviço público, que é levar os jovens a gostar de cinema e a despertar os seus olhares e consciências para as questões ambientais. No âmbito da maximização do impacto dos festivais de cinema ambiental nos seus países de origem, foi igualmente consensual o poder de impactar o público em geral, mas também a classe política para a tomada de ações concretas. No caso português emerge uma certa urgência na cooperação entre as tutelas do Ambiente e da Educação, de modo a que estes ministérios possam reforçar o trabalho no domínio da Educação Ambiental. E neste particular, o Cinema assume-se como importante ferramenta para cumprimento desta missão tão premente quanto nobre.

4.

Chegados aqui, reiteramos a importância da promoção da sensibilização ambiental, assim como o incremento do diálogo aberto, crítico e reflexivo sobre os novos desafios ambientais. Nesse quadro, colocamos esse desafio e foco na realização de eventos de natureza científica e de divulgação, como são os festivais. Nesse particular, colocamos igualmente o ordenamento do território, a biodiversidade e a geodiversidade, considerando o impacto das alterações climáticas, na dimensão adaptação e mitigação, o uso eficiente de recursos e a valorização do território. Um desafio que considere o ordenamento do território e a conservação e valorização do património — natural, paisagístico e cultural — como elementos centrais que nos permitem viver bem dentro dos limites do planeta, incluindo a adaptação às alterações climáticas.

Incrementar boas práticas ambientais e sobretudo as de educação para o território, cujo potencial e valorização, se afiguram cada vez mais como desígnio premente e imprescindível nos dias de hoje. Nesse sentido, considera-se igualmente relevante que a natureza em todo o seu esplendor, seja vista como um ativo político e turístico, de que resulta a importância da sua preservação assim como da valorização das culturas tradicionais, como imperativos das nossas comunidades e entidades responsáveis.

Seia, Janeiro de 2021

Mário Branquinho, Diretor do CineEco | Seia

https://www.publico.pt/2021/02/05/opiniao/opiniao/cinema-ferramenta-promocao-valores-ambientais-1949408?fbclid=IwAR1icCSYDA003A01qapqYJIsCpDYyFv3eV4QUnpNPuZvfEMVycLJfVx1iL4


domingo, 20 de setembro de 2020

UM DIA AINDA HAVEMOS DE FALAR DISTO, Diário de quarentena

 

Diário de quarentena 1


...

Já lá vai mais de um mês. Confinamento forçado, como quase todo o mundo. Como nunca antes visto ou imaginado. Em casa, dia após dia, em tarefas domésticas, em teletrabalho, a lavar sistematicamente as mãos, refrescando a alma, a lavar loiça, a colocar mascara, a escrever, a ler e a ouvir, a proteger os mais velhos na distância, sem abraços , a tentar perceber, a ver notícias repetitivas, e contabilidade de mortos e feridos e a repetir gestos mínimos por metro quadrado. A pensar se não é tudo ficção, assumindo a constatação de que afinal isto tinha de dar-se.

O mundo estava a ficar perigoso demais, e há muito se pronunciava o velho jargão de que "Isto um dia rebenta"!

O mundo abateu-se sobre as nossas teimosias e por força disso está agora o conta-quilómetros a colocar-se a zero, para começarmos tudo de novo. Ou não, e isso é ainda mais intrigante. Pode tudo não passar de um susto, quando se inventar uma vacina, quando se inventarem desculpas para voltarmos à louca corrida em direção a novo abismo de consumismo desenfreado e outros atentados à nossa casa comum.

Meio alheios ao que nos espera, seguimos, na quietude da casa, entre o quarto, a sala e a cozinha. Um dia de cada vez. Lavamos loiça, limpamos o pó, passeamos o cão, ouvimos as notícias, contamos mortos e ensaiamos o regresso ao trabalho. No pico da saturação, à procura de um planalto para as nossas emoções, não baixamos a guarda. Afastamos euforias, porque o caminho ainda é longo e salvando a pele, queremos salvar o sustento, trabalhando.

Serenos, acendemos a vela da esperança, na certeza de comemorar abril, na estranha liberdade confinada ao tempo que vivemos.

 

Mário Branquinho, 19 de abril 2020

 

Diário de quarentena 2


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Em teletrabalho, ou no regresso ao trabalho efectivo, os dias passam, ora lentos, ora depressa. Afinal isto já leva tempo demais. Começa, no entanto, a levantar-se o cerco, tenuemente, deixando meio mundo, meio confuso, meio intrigado, de como será o regresso à normalidade, se voltar a haver normalidade.

Há mais carros na rua e pessoas a circular e na televisão dizem que a curva continua a baixar. Ergue-se a esperança. O perigo dos Lares de idosos continua a pairar, apesar de não se baixar a guarda.

Há um senhor que diz que o 25 de abril está a dividir os portugueses e isso é mau. É um feriado para celebrar a liberdade recuperada em abril de 1974 com a revolução dos cravos, a agora, caiu o caos da celebração, com tudo preso em casa e meio mundo indignado porque se chegou a isto. Sem necessidade. O melhor é no sábado, combinar-se uma hora e virmos todos à varanda ou à janela e cantarmos o Grândola Vila Morena.

Diz no noticiário que a Espanha é o terceiro país do mundo com mais casos a seguir aos Estados Unidos e Itália. Que no Brasil está um louco no Palácio do Planalto, uma espécie de Manuel Joaquim das Couves a envergonhar o seu povo e a colocar vidas em perigo. E nasce um movimento para o expulsar de lá.

Nas ruas à noite, na minha zona, circulam mais gatos que o habitual. Vai a gente colocar o lixo e alguns felinos mansos e ternos, seguem-nos, como se fossemos os donos. Será do tempo, ou andarão angustiados pelo desânimo dos verdadeiros donos?

Leio no Diário de Noticias que o governo e a Santa Casa vão dar dinheiro para ajudar a manter os jornais do país e que se for à proporção de leitores, o CM será o mais beneficiado. Apesar das mentiras que diz e das perseguições que faz, diz o texto que leio. Não é justo! O responsável das pequenas empresas diz que está a haver demora na libertação de empréstimos e isso pode levar à ruína muito negócio e criar muito desemprego. Continuamos na ponte entre salvar vidas e salvar negócios. Não é fácil, mas sabíamos que isto ia doer. Está a doer e não se sabe quando e como acaba.

Há dias que não se pode sair de casa e eu só tentei ver o que se passa ao redor.

 

Mário Branquinho, 20 de abril de 2020

  

Diário da quarentena 3

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Por estes dias até perdemos a noção dos dias da semana. Mais um dia e muitas historias. A novela da atualidade é a da comemoração do feriado do 25 de abril no “confinaParlamento”. Já vai com muito enredo e no episódio de hoje soube-se que antigos presidentes não vão e que outro vai contrariado, e que o ajuntamento será menor. Não se percebe como aceitam lá pessoas com mais de 70 anos!

Fora disso, ouvimos dizer que quem se safa na pandemia são as grandes superfícies, que não param de vender e de subir. Os pequenitos dos produtores não, afundam-se. Fazem falta campanhas de promoção dos produtos da agricultura familiar. Estará na hora de abrir os Mercados Municipais, para ganharmos todos. E amanhã é o dia da terra.

O que não está certo á a publicidade enganadora do Pingo Doce, que ainda por cima, não tem pingo de vergonha, porque ganha cá e paga impostos na Holanda.

Espantoso é o consumo de combustíveis a cair vertiginosamente. Fechados em casa, deixamos de andar de carro e as fábricas, pouco trabalham. Na América já pagam 37 dólares o barril a quem quiser ir lá carregar. Mas não parece haver interessados. A esmola ´é grande, o pobre desconfia. Não será fácil, difícil será mobilizar cântaros e cisternas.

Na televisão portuguesa, ou melhor, em todas, o ministro da economia, Siza Vieira, diz que estamos perante a mais violenta contracção da história da humanidade. Oxalá das contracturas nasça a Esperança!

Enquanto isso, o presidente brasileiro decidiu juntar-se a uma manifestação que pedia uma intervenção militar para derrubar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal Brasileiro. No mesmo dia especula-se que o líder da Coreia do Norte estará muito mal de saúde, e que um controverso virologista francês, premiado pela pesquisa sobre o HIV, acredita que o vírus saiu de laboratório em Wuhan, na China.

Que diremos nós, no meio deste caldo caótico?

Lavamos mãos, colocamos máscaras, coçamo-nos com os cotovelos, fazemos ginástica em casa, inventamos ocupações e dormimos mais que o costume na intranquilidade e na engorda dos dias. E fazemos por esquecer que o mundo é cada vez mais um lugar estranho, que até Edgar Morin diz que as certezas são uma ilusão! Serão?

 

Seia, 21 de abril 2020, Mário Branquinho

  

Diário da quarentena 4


...

Continua o estado de alerta e o confinamento.

Muitos de nós trabalham, outros teletrabalham e outros não. A vida fica difícil, entre angústia e esperança, até que isto passe.

Nas televisões debitam incessantemente números de mortos e feridos, por países e por comparação. Em Portugal fala-se de alivio, que só pode ser perigoso se baixarmos... a guarda. Para já há restrições no feriado prolongado do 1º de maio. Não se pode ir onde se quer. O 25 de abril vai ser à varanda e o resto logo se vê.

Um senhor que falou agora na televisão é apologista da abertura progressiva do setor económico, para isto não morrer tudo. É preciso começar a desenhar o regresso a uma vida mais "normal", com abertura de cabeleireiros, cinemas, ginásios, hotéis, restaurantes, faculdades e creches, pelo menos.

Na televisão o Presidente da América acaba de dizer que se as pessoas injetarem um liquido nas veias, limpam os pulmões e manda-os apanhar sol. No Brasil o Presidente diz que não é coveiro e o seu ministro da Justiça Moro, anuncia demissão e diz que Bolsonaro queria mexer na Polícia Federal para ter acesso a relatórios de inteligência. Já se fala em Petistas aplaudindo o juiz golpista.

Segundo os jornais, a Alemanha prepara-se para uma segunda vaga do coronavírus que pode ser "mais dura que a primeira".

Magia é acreditar num mundo melhor, mesmo que ele piore a cada dia, como dizia o Outro. Isto não está fácil, em tudo que é grande e no muito que é pequeno ou invisível. Anda tudo misturado, nesta crise sanitária, económica e de petróleo. Só o ambiente melhorou. O céu ficou mais azul, a água mais limpa e o ar mais respirável. Vamos ver onde isto nos vai levar, mesmo parados em casa, ou no trajeto casa- trabalho, trabalho – casa. E não está certo haver tanto cócó de cão nas ruas de certas zonas residenciais ou o Zé Malhôa ver a GNR à porta, por dar música aos moradores da zona.

 

Seia, 24 de abril 2020, Mário Branquinho

 

 Diário de quarentena 5



Prossegue este tempo historicamente bíblico. E com ele assinalamos palavras novas e outras repetidas até à exaustão. Coronária vírus, quarentena, pandemia, confinamento, isolamento, contingência, calamidade, fadiga, covid, vírus , dgs, sms, oms, máscaras, viseiras, ventiladores, luvas, álcool, desinfectantes, lares, velhos, idosos, curvas, picos, planaltos, infectados, testes, testados, mortos, vacinas, matemáticos, epidemologistas, videoconferências, teletrabalho, moratórias, lay off, take away, encerramentos, cancelamentos, adiamentos, Trump, Bolsonaro, gatos, caezinhos e por aí fora.

As redes sociais e as televisões animam-nos e desanimam-nos, proliferam eventos virtuais, seguem iniciativas de todos e cada um de sua casa e assim nos ocupamos. Falta-nos sol e sobra-nos tempo.

As ruas continuam desertas, os comércios, escolas e outros serviços fechados. Cresce-nos o cabelo, sobra-nos tempo, falta paciência, falta negócio e dinheiro e adiam-se eventos. Aumentam incertezas, espreitam esperanças, vive-se um dia de cada vez.

Não saímos à rua de cravo na mão, mas saímos de máscara e estranhamente até entramos mascarados nos bancos e não assaltamos. E num dia como hoje, vêm-nos à memória uma frase batida, como se fosse o primeiro dia do resto das nossas vidas, por evocarmos a liberdade em tempo de reclusão. Com canções de abril, do Zeca, do Godinho e tantos outros que fizeram da canção uma arma e nós quase sem fazer nada.

Cresce o cabelo e cresce a ilusão de ficarmos bem, apesar do medo, apesar do vírus, apesar dos chineses, apesar de tantas palavras, apesar de tudo e até dos presidentes da América e do Brasil.

 

25 de abril 2020, Mário Branquinho

segunda-feira, 13 de abril de 2020

O “amigo Zeca de Seia” provoca onda de solidariedade com máscaras e viseiras



Já é conhecido por todo o país como o “Amigo Zeca de Seia”, pela onda de solidariedade que a partir do seu atelier, tem desenvolvido, confecionado máscaras recicláveis e viseiras de acrílico, para distribuir gratuitamente por várias instituições sociais e de saúde.

Em meados de março, com o eclodir explosivo da pandemia, começou por confecionar máscaras de proteção recicláveis para utilização em contexto extra-hospital, fornecendo a instituições, de forma totalmente gratuita.

Associou-se ao jovem empresário de malhas, Filipe Marques, que tinha encerrado a sua empresa por falta de encomendas de cachecóis dos clubes europeus de futebol. A última encomenda seria destinada a um jogo do Bayern de Munique para 20 de abril, ao que se sabe!

Do material dos cachecóis tentaram uma espécie de manga, que não resultou, tendo optado pela confeção de uma bolsa, levando por dentro um elemento filtrante, descartável. Coseram o elástico, testaram e em pouco tempo reuniram com o município de Seia a quem apresentaram o projecto, em forma de oferta. Foi precisamente a 20 de março, no dia de aniversário do Zeca, quando já havia alguns municípios a fazer máscaras, mas com tecido sobre tecido, sem elemento filtrante.

Sem muitas delongas, o município de Seia adquiriu o primeiro lote para distribuir por todas as IPSS do concelho, aproveitando a disponibilidade do empresário senense José Rogeira que financiou de imediato, o custo da matéria prima e maquinaria deste primeiro lote, para o qual foi também decisiva a colaboração de vários voluntários na costura final, de Loriga, Vila Cova, Seia, S. Romão, Torrozelo, Paços da Serra e Manteigas.

Por isso, o Zeca realça sempre que tudo isto só é possível graças a uma equipa de pessoas, membros da GNR, farmacêutico, comerciantes locais, estudantes, associados a um saudável espirito de camaradagem e convívio em tempo de pandemia. Aqui o Zeca, é o José Loureiro e toda uma equipa sem a qual não conseguia, e indica os nomes, para que conste: Paulo Brás, Carlos Silva, Tiago Ferreira, Pedro Daniel Conde, Amândio e Marcelo Daniel, Jorge e Pedro Pinto, Afonso Rogeira, João Quaresma, Fábio Fernandes, João Oliveira, António Magina. João Ferreira, Carla Reis e Olga Oliveira.

E em pouco tempo ao atelier chegavam pedidos e colaborações, numa onda conjunta de quem precisa e de que está disponível para colaborar. Tem havido inclusivamente pessoas que levam comida e bebida para quem se envolve neste projeto solidário.

Sempre são vários dias e horas, fechados na faina de fazer, coser, atar e andar!

Exausto em alguns momentos, mas entusiasmado o tempo todo, o nosso Zeca abre, entretanto, uma outra frente solidária, a da conceção de viseiras, desenvolvendo uma ideia a partir de um modelo fornecido por um seu amigo Kika do Minho. E começa outra etapa desta onda solidária, no tal espírito de equipa.


Aproveitando todos os restos de acrílico da sua oficina, recicla-os e quando dá conta, está a distribuir mais de mil viseiras pelo comércio local, GNR e outras instituições de diversos pontos do país. Tudo gratuitamente. E a máquina de corte da sua oficina não para. Tem cortado mais em quinze dias do que nos últimos meses. Já depois de acabar todo o acrílico que havia por ali no pavilhão, foi encomendando mais, até chegarem mais sobras de outras empresas, sensibilizadas pela sua ação, ligando-se a esta rede solidária deveras impressionante. Tão impressionante como a simplicidade do Zeca, dedicado por vezes mais de 16 horas por dia à causa, fazendo e distribuindo, orientando e explicando sempre que “não é nada”, apenas disponibilidade e colaboração. Tem havido pessoas a querer pagar e lá vai explicando, pausadamente, que não, que é gratuito, que é para proteger quem precisa ser protegido, no trabalho, na saúde e na vida confinada que se abateu sobre todos.



Já lá vão mais de 6 mil viseiras, leves, funcionais e práticas, oferecidas para onde são precisas, em toda a região da serra da Estrela, pelo país e por alguns países da europa. E a fama do “Zeca de Seia” alastra, ao ponto de alguém numa vila das proximidades oferecer uma máscara a uma senhora idosa de um pequeno comercio e ela perguntar se era uma “mascara do Zeca”! Ou daquele outro senhor da Guarda, que foi a uma loja perguntar se tinham viseiras para as suas filhas que trabalham no hospital e alguém na fila para atendimento lhe diz que ligue para o “Zeca de Seia” que ele tem e lhe dá o contacto na hora.

Entretanto, há poucos dias começa outra etapa deste storytelling. Uma enfermeira de uma localidade próxima de Seia mostra uma “viseira do Zeca” ao marido, que é um engenheiro a trabalhar na PSA de Mangualde, que por sua vez vê ali uma ideia para levar a quem manda. E não foi preciso esperar muito tempo para que o grupo PSA e a fábrica PSA de Mangualde ficassem sensibilizados com este projeto solidário e com o espírito de entreajuda que está na base da iniciativa. Associaram-se ao projeto e à colaboração do Zeca.

Mário Branquinho


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Cinema ambiental para despertar consciências

Em Portugal há um festival de cinema único, que se dedica exclusivamente à exibição de filmes de temática ambiental. Organizado pelo município, o CineEco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, decorre em Seia, anualmente em Outubro desde 1995, tendo completado a sua 25ª edição neste ano de 2019. O festival fez o seu percurso ao longo de um quarto de século e hoje constitui uma referência no quadro de festivais internacionais de cinema de ambiente, integrando uma rede de mais 39 certames desta natureza espalhados pelo mundo, o Green Film Network.

Cumpre um serviço público na região de Seia e serra da Estrela, pela realização do festival e mobilização de públicos, mas também no país, como o festival de cinema de ambiente de Portugal, ao dinamizar uma vasta rede de extensões ao longo do ano, em mais de 40 cidades, para o público geral e escolar.

Ao longo desta trajetória de quarto de século, o evento que se assume igualmente como movimento em prol de mudança de hábitos, reafirma a importância do cinema como ferramenta fundamental na promoção dos valores ambientais.

Neste contexto, importa sublinhar a importância do cinema enquanto ferramenta que permite partilha de conhecimento, assim como área de fornecimento de pistas de aprendizagem capazes de abrir portas à reflexão. Que levem a questionar, a inquietar e a operar mudanças de comportamento, sobretudo quando falamos de cinema como recurso educativo. E aqui, entra em linha de conta, a importância de problematizar estratégias de linguagem, operadas em filmes eco-ambientais, de cariz educacional.

Filmes, enquanto objetos artísticos e ferramentas pedagógicas, capazes de demonstrar a importância das artes para mudanças de paradigmas nas sociedades contemporâneas. Neste caso concreto das questões de ambiente e sustentabilidade, o contributo tem sido decisivo, à medida do leque de intervenção. Das inúmeras sessões realizadas e dos públicos mobilizados, seja nos auditórios, nas escolas ou outros espaços alternativos, em reforço constante da ação e missão.

A confirmação de alguns fenómenos como as alterações climáticas, as ameaças à biodiversidade, o esgotamento de recursos, entre outros, colocaram na agenda mundial a tomada de consciência da crise ambiental de carácter global.

Em face destas ameaças cada vez mais presentes, nos atropelos aos valores ambientais e de sustentabilidade, emerge por isso, o imperativo de mudança. De um modo geral e de forma simplista, o foco coloca-se sobretudo na necessidade de redução de uso de plásticos, na redução de consumo de carnes e outros alimentos compostos, e de uma maneira geral na redução da emissão de gases com efeito de estufa provenientes de industrias, transportes, agricultura ou resíduos.Neste contexto, além da difusão do gosto cinematográfico, o cinema ambiental tem sido um instrumento primordial na promoção da educação ambiental junto do universo escolar. Pequenos contributos para a formação de cidadãos mais esclarecidos a nível ambiental, na busca de melhores condições de vida na nossa “casa comum”, a que também chamamos planeta.

A tudo isto, junta-se o “efeito Greta Thunberg”, que tem despertado a opinião pública, os governos e as instituições e sobretudo os jovens à escala mundial, agitando consciências para o imperativo de mudança nos nossos hábitos diários e necessidade de políticas capazes de inverter o flagelo apressado do aquecimento global a que assistimos.

Por tudo isto, tudo é pouco e o cinema é o muito que nas artes se pode dar, numa causa que nos mobiliza a todos.

Seia, 20 de Dezembro 2019
Mário Jorge Branquinho, no Observador




sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Carta aberta aos “desalmados de  burnout”

Cara senhora ou senhor,

Espero que esta minha carta os encontre à procura de melhor saúde mental, na expetativa de melhores dias, em todos os teatros de operações diariamente frequentados.
O desejável era que não fosse, mas a estatística diz-nos que sim, que há fortíssimas probabilidades de estar no clube dos “desalmados de burnout”. Uma elite a que aderem cada vez mais, à proporção do stress físico e emocional e respetiva exaustão e sentimentos de ineficácia a eles associados.
De facto não acontece só aos outros, por isso me lembrei de si, que certamente é um de seis que sofre a bom sofrer, silenciosa e delicadamente. Um dos expostos a esse danado stress laboral crónico que o deixam em baixo ou de baixa. Carregado de lapsos de memória, de falta de concentração, impaciência, irritabilidade, fadiga ou enxaqueca, ou dores, ou insónias, ou desânimo, ou baixa auto-estima, ou desespero constante ou outra coisa qualquer não recomendável no livro da psiquiatria.
Se está neste lote, é quase de certeza uma das vítimas de quase bullying laboral, ora de lideranças frágeis e frouxas propícias à desmotivação, complicadas ou arrogantes, ora de sistemas toscos e sisudos e ambientes obscuros, ora ainda de ameaças e medos a emergir na concorrência feroz e atroz.
Como deve saber, o importante é saber o que lhe faz mal, circunscrevendo o diagnóstico e a partir daí colocar o foco nas coisas boas, arredando da ação e do pensamento tudo que é tóxico. E claro, como vem nos manuais, evitar conflitos e mexericos, sorrir e adotar formas de vida saudável. Ou como diria o outro, dividir o dia em três partes. Oito horas para trabalhar, oito para dormir e outras oito para o lazer e família. E não é preciso ser rico para ser assim, porque nas horas de lazer e família está o busílis. Se convivemos com os amigos, se praticamos desporto, se vamos ao cinema, se ouvimos música, se lemos, se pescamos, se deixamos os assuntos laborais no local de trabalho e vice-versa e se e se. Nem precisamos fazer o pino, apenas saber separar o que é do trabalho e o que é da família.
Cara senhora ou senhor, se não está neste clube de “desalmados de burnout”, não se ria porque a qualquer momento pode estar. Se já está ou quase se sente membro desse inferno, saia enquanto é tempo, para não se infernizar e enfermar a si e aos seus. Nem precisava que lhe lembrasse, mas nunca é demais recordar, como nunca é demais treinar a mente para estes exercícios do que deve e não deve, para não sofrer e perder. Olhe que é na alegria que está o ganho e na inteligência emocional de que nos falam.
Mesmo na adversidade laboral ou familiar, lembre-se que quase estamos condenados a aturar-nos uns aos outros, por isso use as suas defesas e não pense que tudo isto é moralismo prosélito. Continue a colocar paixão e criatividade no que faz e faça você mesmo por criar ambientes propícios à colaboração e entreajuda e sobretudo procure meter na gaveta a arrogância de quem o martiriza. E de caminho, se poder, meta lá dentro a pessoa, não hesite!
Só se vive uma vez e se lhe disserem que no trabalho não precisamos de ser amigos, cultive a amizade, mesmo na adversidade e sorria e siga e surpreenda os seus pares sempre que for oportuno. Ofereça flores ou chocolates, cante, dance, conviva sempre que puder, e não apenas no Natal, porque como se diz no Carnaval, a vida são doiSem exageros, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, para que não lhe apontem o ditado de “muito riso, pouco siso”, enverede pelo meio do caminho, que é onde pode estar a virtude ou a bondade. Tanto em casa como no trabalho, em terra ou no mar, muitos ditados se aplicam a tempestades, porque onde há duas pessoas há um potencial de conflito e de ondas. E quem quer ver o caráter de uma pessoa, dê-lhe um pouco de poder, e constate a crispação na maré alta da presunção de que se fala.
Na gestão de conflitos e sobretudo nas relações interpessoais é que está o segredo e não há que ter medo, siga, descontraia e se for preciso medite, que a meditação é a oração dos honestos.
A terminar, formulo votos de melhoras ou cautelas, conforme os casos e não se esqueça que é possível viver feliz e triunfar na vida, mesmo numa pocilga de inquietação ou no reino da hipocrisia.
Bom Natal!
Seia, Dezembro 2019
Observador, 14 dez 2019, 00:084

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Sabugueiro, aldeia em transformação


(texto publicado na Revista Iberografias, nº 15, do Centro de Estudos Ibéricos, com sede na Guarda)


Mário Branquinho

1.
Em plena montanha, a 1050 metros de altitude, chamada a “aldeia mais alta”, o Sabugueiro, fica a meio caminho do “teto de Portugal”, ponto mais alto da serra da Estrela, a quase dois mil metros. A dois passos da única pista de esqui do país, para cima, e a 11 quilómetros da sede do concelho, Seia, para baixo.
Com cerca de 450 habitantes (478 nos sensos 2011), o Sabugueiro é hoje, em 2019, uma aldeia que vive essencialmente do turismo, com mais de 30 lojas comerciais, predominando produtos artesanais e 10 restaurantes que valorizam a gastronomia local.
O alojamento local tem vindo em crescendo, quer pela recuperação de casas antigas no centro antigo, quer pelo registo oficial efetuado pelos seus proprietários. Ao todo, contam-se no portal do Turismo de Portugal 30 unidades registadas, com 1 hotel de 4 estrelas, 1 hostel e demais alojamentos locais, para um total de 465 dormidas legalizadas.
O Sabugueiro é uma das mais extensas freguesias de todo o Parque Natural da Serra da Estrela, sendo a aldeia conhecida pelos seus recursos naturais, entre os quais as quedas de água, e pelas paisagens de uma vegetação serrana única.
Precisamente pela sua localização, o Sabugueiro constitui um dos melhores pontos de partida para conhecer algumas das estruturas do aproveitamento hidroeléctrico da Serra da Estrela, de que são exemplo as barragens do Lagoacho, do Vale do Rossim e da Lagoa Comprida, o maior reservatório de água em toda a serra.
Embora o turismo e o comércio constituam as principais atividades económicas das suas gentes, os usos e costumes de antigamente marcam, ainda, o ritmo diário da aldeia. Algumas das atividades são valorizadas através de eventos organizados no quadro do projeto da rede de Aldeias de Montanha. Destas, destacam-se a Queima do Entrudo (Sábado de Carnaval), a Caminhada à Serra (Maio), a Festa da Transumância (Junho), a Noite das Caçoilas (Novembro), além das festas religiosas do Santíssimo Sacramento (1º Domingo de Agosto) e a Festa da Nª. Senhora da Graça (3º fim de semana de Setembro).
O padroeiro da terra é S. João Batista, celebrando-se a sua festa na noite de 23 para 24 de junho. Para além da Igreja Paroquial, existe ainda outro local de culto que é a Capela de Nª. Senhora de Fátima.
Outrora terra de centeio e de pastorícia, o Sabugueiro oferece ao visitante paisagens deslumbrantes e locais pitorescos de curiosidades múltiplas.
A Praia Fluvial é o local privilegiado para o descanso, sobretudo no Verão, onde apetece mergulhar nas águas cristalinas que correm por entre as pedras gastas da ribeira. Junto à praia fluvial, na margem do Rio Alva, situa-se o Polidesportivo da Freguesia, disponível para o desporto e lazer, quer dos habitantes da aldeia, quer dos turistas que visitam o Sabugueiro.
O "Forno Velho" é hoje um espaço museológico onde estão retratados vários aspetos rurais da aldeia, com destaque para a pastorícia e as sementeiras agrícolas. Este espaço situa-se na parte mais antiga da freguesia, junto ao forno comunitário.
O forno comunitário foi ao longo dos anos utilizado por quase todas as famílias da freguesia para cozer o "Pão do Sabugueiro", um elemento central da alimentação que dava sustento para uma ou duas semanas. Ainda hoje o visitante pode encontrar algumas mulheres da aldeia com os seus tabuleiros à cabeça, que aqui vêm cozer o saboroso pão.
Os moinhos de água e o forno comunitário são exemplos de memórias de um passado que não quer ser esquecido.
A Cascata da Fervença e o Covão do Urso, ampla depressão de origem glaciária, constituem exemplos de valores paisagísticos que merecem uma visita.
Do ponto de vista social e cultural, destaca-se o papel da Associação de Beneficência do Sabugueiro, uma IPSS com várias valências, que emprega cerca de 30 pessoas, o que é relevante para a dimensão económico-social da freguesia.
A Associação possui uma estrutura residencial para idosos, presta serviço de apoio domiciliário, apoio médico e de farmácia, escola de música. Desenvolve ainda o projeto “Alavanca” para acompanhamento próximo e regular da população alcoólica e tóxicodependente nos concelhos de Seia e Gouveia. Participa no projecto “Sabugueiro, Aldeia Inteligente”, em parceria com a Vodafone, Município de Seia e Junta de Freguesia. O principal objetivo deste projeto é a disponibilização de soluções tecnológicas na aldeia do Sabugueiro que contribuam para a melhoria de qualidade de vida dos cidadãos e que funcionem de alavanca para a melhoria do desempenho ambiental deste espaço rural.
Mais recentemente, esta Associação transformou o antigo Centro de Dia no Hostel Criativo do Sabugueiro, uma unidade hoteleira com capacidade para 34 pessoas, onde também se realizam residências artísticas.


2.
Até meados da década de 90, a agricultura e a pastorícia ainda eram atividades preponderantes, registando-se o cultivo das “courelas” mais junto ao povoado, sobretudo para legumes, batata e milho e, nos campos mais afastados do povoado e mais extensos, pelas encostas da serra, para as sementeiras de centeio. O trabalho era manual, muito duro e demorado, contando com o recurso a burros, quer para lavrar as terras, quer para transportar os produtos arrecadados ao campo. Segundo Alberto Martinho, sociólogo, natural do Sabugueiro, com vasta obra publicada, “em 1971 havia na aldeia 102 burros, 2 cavalos e 8 éguas, dispersos por 64% das casas. Em junho de 1998 havia na aldeia 19 burros, 2 éguas e 4 cavalos (dois são apenas usados para passeios turísticos”.
Estes animais de carga, serpenteavam pelos caminhos escarpados e difíceis e eram por isso de grande valor, transportando em segurança pesados fardos.
A pastorícia era também uma atividade preponderante desde tempos imemoriais. Os pastores, no tempo da neve, viam-se forçados a “invernar” para as chamadas “terras chãs”, levando consigo a família, incluindo filhos em idade escolar. Por lá permaneciam de novembro a fevereiro do ano seguinte, voltando com a Primavera. No pico do Verão, juntavam-se as “chotas” e faziam a transumância, ou seja, chegavam a juntar-se mais de mil ovelhas de vários pastores, para subirem à serra e aí, estes, “revezavam-se” na guarda do gado, permitindo algumas folgas.
Também até meados da década de 90, registavam-se na aldeia muitos trabalhadores das fábricas têxteis de Seia, sobretudo da Fisel e da Vodratex que, no total, com outras fábricas, chegaram a empregar cerca de 4 mil trabalhadores no concelho de Seia.
Segundo Alberto Martinho, “chegaram a contar-se na aldeia cerca de 30 motorizadas”, que era o principal veículo de transporte do Sabugueiro para as fábricas de Seia.
Ao longo das décadas de 70, 80 e 90, no rendimento das famílias registava-se um cenário acentuado de pluriatividade, ou seja, para além do rendimento das fábricas têxteis (e também da EDP e da Fábrica das Águas Serra da Estrela), os trabalhadores juntavam o rendimento da agricultura familiar. Por exemplo, todas as famílias semeavam centeio e coziam o pão no forno comunitário, onde o “forneiro” se encarregava de organizar as fornadas. Assim como havia o controle da levada de água, para as regas dos campos mais próximos da aldeia.
De fora, vinham as malhadeiras para a malha do centeio, nas eiras de pedra, onde os “rolheiros” de molhos de centeio empilhados, davam lugar aos palheiros. E na Festa da Senhora da Graça, oferecia-se centeio à Virgem, como forma de agradecimento pelas colheitas. Centeio que era depois leiloado, revertendo a receita para as festas da “Santa”. E todas as famílias possuíam arcaz de centeio na loja, para o pão no ano inteiro.
A partir da década de 70, “os das fábricas” transformaram-se também em novos resineiros e outros recoletavam bolbos “de flores” (Narcisos) que eram vendidos para o Porto e, por sua vez, exportados para a Holanda. Os mesmos também apanhavam bagas de zimbro que vendiam para serem misturadas na aguardente, vendida aos turistas (Martinho, 2008).
Com o fim do têxtil, uma mono-indústria que caracterizou durante décadas o concelho de Seia, e com a invasão de supermercados de média dimensão e consequente abandono agrícola, foram surgindo ao longo da Estrada Nacional 339 várias lojas comerciais vocacionadas para o turismo que rumava à Serra. Era outra transformação que se ia operando.
A primeira loja comercial destinada aos turistas tinha aberto as suas portas em 1959 e, em 1972, já eram 3 estabelecimentos (Martinho, 2008).

Foto de Manuel Ferreira
3.
Nos fins do século XIX, a penetração da Serra da Estrela começou a verificar-se através de excursões cientificamente organizadas. O Sabugueiro tornou-se estação obrigatória ou ponto de apoio e de passagem para os exploradores. De aldeia ignorada, tornou-se muito conhecida. Uma transformação decisiva e surpreendente, que foi em crescendo ao longo dos anos.
Do ponto de vista histórico e político-administrativo, podemos dizer que o Sabugueiro era uma freguesia independente, pelo menos em 1757, e assim o confirma o Código Administrativo de 1836. Porém, em 1936, foi anexada à de Seia, pelo que os seus habitantes fizeram esforços para obterem a devida autonomia e assim o conseguiram em 1946.
O Cadastro da população do Reino, mandado organizar por D. João III, em 1527, dava a Seia 1.168 moradores e ao Sabugueiro 19 (Bigotte, 1992). O Capitão Dr. António Dias, na sua "Monografia do Sabugueiro", insere uma inquirição em que D. Pascoal respondeu que nesta povoação eram possuidores de terras Mendo Carneiro, Pedro Viegas e Domingos Gonçalves, que não pagavam foro ao "Senhor Rei".
Em antigos documentos aparece chamada de "Vila de Sabugária". É por isso uma povoação muito antiga, de que dão notícias as Inquirições de D. Afonso II, em 1296, onde se chama "Sambugueiro", Sabugário e Sabugueiro (Bigotte, 1992).
Reza a história que esta freguesia surgiu a partir de um aglomerado de cabanas de pastores que aproveitavam os pastos para as suas ovelhas e cabras.

Foto de Manuel Ferreira
4.
Como se lê e constata, o Sabugueiro tem sido ao longo da sua história, uma aldeia em transformação, que vai às raízes da sua identidade, para se reinventar sucessivamente. Como que arrancando pedras duras e toscas da montanha, o homem de cada época foi moldando a sua faina na procura de sustento. Soube extrair da montanha, riqueza e sabedoria, na adaptação aos tempos, nesse imenso potencial de natureza brava e fria.
Agora, perscrutando o futuro, sobressai o anseio de resposta aos novos tempo, exigentes de requintes e de formas modelares, capazes de cruzar a tradição com a modernidade. No anseio e desejo de ver engenho e arte suficiente para ajudar a acordar um gigante meio adormecido, que é esta uma montanha de riqueza chamada serra da Estrela, com o Sabugueiro a meio.


Bibliografia:
Martinho, Alberto (2008), O Caixão das Almas
Bigotte, Quelhas (1992), Monografia da cidade e concelho de Seia
Martinho, Alberto (1978), O Pastoreio e o Queijo da Serra
Martinho, Alberto (1972), Sabugueiro, uma Aldeia da Serra da Estrela
Dias, Capitão Dr. António (1945), Monografia do Sabugueiro

Webgrafia:
Entidades:
Turismo de Portugal, Registo Nacional de Turismo
Freguesia do Sabugueiro:
Associação de Beneficência do Sabugueiro



terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Hostel Criativo abre na aldeia de Sabugueiro, na Serra da Estrela



O antigo Centro de Dia da aldeia foi convertido em hostel com o objectivo de promover o turismo cultural, potenciando o intercâmbio entre comunidades artísticas e a comunidade local.
O antigo edifício do Centro de Dia de Sabugueiro, em Seia, na Serra da Estrela, reabriu as portas como hostel com o objectivo de "reforçar o turismo cultural e promover a economia social", foi esta terça-feira anunciado.
O Hostel Criativo "é o mais recente projecto da Associação de Beneficência do Sabugueiro, que resultou do aproveitamento do antigo edifício de Centro de Dia, localizado num lugar privilegiado da aldeia, designada a 'mais alta de Portugal'", disse à agência Lusa o presidente da direcção, Mário Jorge Branquinho.
Segundo o responsável, o Hostel Criativo do Sabugueiro, que foi criado com o apoio do Turismo de Portugal, assume-se como "uma unidade diferenciadora em plena Serra da Estrela".
Mário Jorge Branquinho adiantou tratar-se de "um espaço acolhedor, de conforto e de forte inspiração para acções criativas e de Residências Artísticas o ano todo, em plena Serra da Estrela".
A unidade hoteleira é também um projecto que surgiu enquadrado "numa estratégia de economia social" daquela instituição de solidariedade social, do concelho de Seia, "de apoio a camadas mais desfavorecidas da região", disse.
O novo hostel dispõe de camas em quartos com beliches e de camas individuais que acomodam quatro a sete pessoas, e de dois quartos duplos, com uma capacidade total para 33 pessoas.
Também possui uma sala de convívio, "onde se realizam exposições, tertúlias, exibição de filmes e outras actividades, e uma marquise para descanso ou actividades criativas, como sejam pintura, escrita criativa, composição musical ou outras", acrescenta a fonte.
O equipamento está ainda dotado com cozinha, 'wi-fi' gratuito e aquecimento geral, entre outros suportes de conforto.
"Com este novo projecto, que é diferente de todos os que existem na região, a Associação de Beneficência do Sabugueiro tem como objectivos promover as artes e a cultura, inspiradas nos recursos do território regional, fomentando o intercâmbio entre comunidades de artistas, pensadores e criativos e a comunidade local/ regional", segundo o seu presidente.
O projecto visa também "fomentar o conhecimento das potencialidades naturais do território, através da oferta de experiências baseadas no turismo cultural e de natureza".
Fomentar a participação da comunidade local e o intercâmbio com os turistas, combater a sazonalidade do turismo na região de intervenção e contribuir para o aumento da estada média dos turistas, são outros dos propósitos que estiveram na origem da criação do novo equipamento hoteleiro.
Com a obra, a Associação de Beneficência do Sabugueiro "prossegue a sua missão social", uma vez que o hostel "pretende ser uma nova fonte de rendimento para a instituição, enquadrada na chamada 'economia social'", refere a direcção.

Lusa 12 de Fevereiro de 2019, 14:28 – Jornal Público